quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Foi reconstituído 80% do ADN dum homem que viveu há 4000 anos.







Foi graças a um tufo de cabelo, conservado durante milénios no permafrost do Árctico, que uma equipa internacional de investigadores conseguiu, pela primeira vez, reconstituir 80 por cento do genoma de um ser humano pré-histórico e determinar alguns dos seus traços físicos, bem como alguns elementos da origem geográfica dos seus antepassados.



Eske Willerslev, da Universidade de Copenhaga, e os seus colegas, que publicam os seus resultados na revista Nature, baptizaram com o nome Inuk este velho humano – que os seus genes dizem ser do sexo masculino. Inuk, que viveu há uns quatro mil anos na Gronelândia, pertencia à cultura saqqaq, hoje extinta, conhecida como sendo a primeira a ter habitado aquela região do mundo. Trata-se de um povo sobre o qual pouco se sabe, porque pouco resta da sua cultura.

Os restos de cabelo – e também de osso – provêm da localidade de Qeqertasussuk. Mas, ironicamente, como conta também na Nature Rex Dalton, num perfil de Willerslev, não foi ele que os encontrou. O cientista já tinha procurado, em 2006, cabelos humanos no permafrost da tundra do norte da Gronelândia. Mas em vão. Qual não terá sido o seu espanto quando, dois anos mais tarde, deu com o cabelo de Inuk... numa cave do Museu de História Natural da Dinamarca, a escassos quarteirões de distância do seu próprio laboratório. Estava lá guardado há 20 anos.

Genómica último modelo

Utilizando a mais avançada geração de máquinas de sequenciação genética, os investigadores conseguiram, no ano passado, extrair e sequenciar o ADN do cabelo de Inuk. A operação demorou dois meses e meio e custou meio milhão de dólares. Graças a isso, puderam repetir a sequenciação 20 vezes, o que lhes permitiu obter resultados de grande precisão, com muito poucos erros de leitura dos seis mil milhões de bases do ADN (metade vinda da mãe de Inuk, metade do seu pai). “A nossa sequência”, disse Willerslev durante uma conferência telefónica com jornalistas, “é comparável em qualidade à dos genomas sequenciados até agora de indivíduos actuais”.

A seguir, os cientistas fizeram, basicamente, o que faz hoje qualquer uma daquelas empresas que, por algumas centenas de euros, nos propõem analisar o nosso genoma para determinar a nossa ancestralidade, características físicas e os nossos riscos perante diversas doenças: estudaram os chamados SNP de Inuk – mais precisamente, 350 mil destes marcadores genéticos. Os SNP, ou single nucleotide polymorphisms, são variações pontuais, numa única letra do ADN, distribuídas por todo genoma e que permitem deduzir este tipo de informações comparando os indivíduos.

Concluíram assim, entre outras coisas, que Inuk tinha provavelmente os olhos e a pele castanha, que tinha os dentes “em forma de pá” (uma morfologia característica dos povos asiáticos) e que estava geneticamente adaptado ao clima frio do seu habitat. Que a cera dos seus ouvidos era seca, que o seu grupo sanguíneo era A+ e que tinha uma tendência para a calvície. A este propósito, Willerslev salienta que “este tipo tinha ainda muito cabelo, portanto deve ter morrido jovem...”

Mas a grande surpresa veio do estudo da ancestralidade de Inuk. “Descobrimos que as populações actuais geneticamente mais próximas de Inuk”, acrescenta Willerslev, “são três populações da Sibéria”. Os nganasans, os koryaks e os chukchis. Embora Inuk possa não ser representativo da cultura saqqaq, isto sugere que, ao contrário do que se pensava, terá havido, há uns 5500 anos, uma migração do Velho Mundo para o Novo Mundo até agora desconhecida e independente da dos antepassados dos inuit e dos índios da América do Norte. Inuk tem, ao que tudo indica, antepassados diferentes destas duas outras populações. Trata-se de uma migração “substancial e relativamente recente que atravessou o estreito de Bering da América do Norte até a Gronelândia”, escrevem por seu lado dois especialistas, David Lambert e Leon Huynen, da Universidade Griffith, na Austrália, num comentário que acompanha a publicação dos resultados.

Naquela altura, frisa ainda Willerslev, “terão tido de atravessar o mar de Bering de barco ou de passar por cima do gelo aproveitando o Inverno”.

Desta vez, os investigadores utilizaram o melhor material imaginável para extrair o ADN: um espécimen congelado – e portanto pouco degradado ou contaminado com ADN de outras espécies. Mas os cientistas confiam que, mesmo com outro tipo de restos, vindos de latitudes mais amenas, será possível fazer o mesmo. Morten Rasmussen, um dos co-autores do trabalho, explicou aos jornalistas que para isso, bastará que os fragmentos de ADN sequenciados “sejam suficientemente compridos para encaixar sem ambiguidade numa dada localização do genoma humano”.

“Vamos ver aparecer muitos mais resultados destes nos próximos cinco anos”, garante Willerslev. O seu próximo objectivo: fazer o mesmo com múmias. “Há, um pouco por toda a América do Sul, múmias que têm entre 8000 anos e uns séculos.”

Fonte: Ana Gerschenfeld, Público

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Decifrado genoma de pessoa morta há quatro mil anos




Trabalho na 'Nature' é o primeiro que desvenda a quase totalidade do ADN de alguém falecido há muito

Chamaram-lhe Inuk, que significa ser humano na actual língua da Gronelândia. Inuk, que era moreno, tinha olhos castanhos e tendência para a calvície, foi um dos primeiros povoadores daquela região, há mais de quatro mil anos, mas agora regressou dos mortos para contar uma história de pioneirismo e de migrações milenares, graças à genética. Bastou um tufo de cabelos que estava num museu. A partir dele foi possível reconstituir pela primeira vez o genoma quase completo de uma pessoa morta há muito. Esta é também a história de um feito pioneiro da ciência.

O trabalho, publicado hoje na revista Nature, foi realizado por um grupo de investigadores coordenado pelo especialista em genética Eske Willerslev, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, e permitiu sequenciar pela primeira vez 80% do genoma nuclear (a informação genética contida no núcleo da célula) de um ser humano morto há muito. "Até agora, nenhum genoma de um ser humano do passado tinha sido publicado", diz a equipa no seu artigo, referindo que os únicos elementos disponíveis deste tipo eram "alguns milhares de pares de bases do ADN de um neandertal", ou seja, uma porção ínfima da sua informação genética.

No caso de Inuk, os investigadores conseguiram decifrar o astronómico número de três mil milhões de pares de bases (blocos químicos mais elementares) do seu ADN. Para esse êxito, explicaram os investigadores, contou também "o estado de excelente conservação do ADN" devido ao permafrost (solo gelado) no qual se manteve preservado.

Esta não é a primeira vez que o investigador Eske Willerslev se distingue nesta área. Há apenas um ano, foi também ele que coordenou a equipa que reconstruiu o genoma mitocondrial (presente numa estrutura celular chamada mitocondrial) completo de um mamute.

Quanto a Inuk, a sua informação genética mostra que ele tinha o grupo sanguíneo A positivo e que pertenceu ao primeiro povo povoador da Gronelândia, os saqqaq, que migraram para aquelas paragens há cerca de seis mil anos, vindos da Sibéria. Ainda é com os actuais povos siberianos que Inuk mais se parece, e não com os actuais esquimós.
Fonte: Filomena Naves, DN

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