quarta-feira, 16 de março de 2011

A teoria construtivista de Piaget


Introdução

Jean Piaget (1896-1980) criou o termo ‘epistemologia genética’, que compreende o estudo desenvolvimentalista da natureza do conhecimento, ao elaborar a sua teoria, buscou uma embriologia da inteligência que lançasse a luz sobre o problema da relação entre o sujeito agente ou pensante e os objectos do seu conhecimento. A busca, no campo do estudo do conhecimento, levou Piaget da Biologia à Psicologia, através do estudo da mente humana.

Em 1919 frequentou a Sorbonne em Paris, onde fez cursos de Psicopatologia, Lógica, Epistemologia e Filosofia da Ciência.

Ao aplicar testes de inteligência a crianças, sentiu-se cada vez mais interessado na razão pela qual as crianças fracassavam em testes dessa natureza, em lugar de interessar-se pelo estabelecimento de índices normativos de sucesso. Assim, começou a estudar o raciocínio das crianças e os caminhos percorridos por estas para chegar às suas respostas.

Em 1921, com 25 anos de idade, ocupou o cargo de director de pesquisas no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra. Nesta mesma época casa-se com uma das suas alunas do Instituto. Do seu casamento resultaram 3 filhos. Com a ajuda da sua esposa, Piaget estudou o desenvolvimento cognitivo dos seus filhos de forma muito detalhada e minuciosa. A partir dessas observações, fundamentou muitos dos seus livros posteriores sobre o desenvolvimento da inteligência durante a primeira infância e a época em que a criança aprende a andar.

Em 1929, foi nomeado director do International Office of Education e tornou-se membro do Conselho Executivo da UNESCO.

Na década de 1930, o Instituto Rousseau fundiu-se com a Universidade de Genebra no qual Piaget assumiu a posição de director. Piaget afastou-se das actividades como professor em 1971, mas continuou a sua actividade de investigador.


A teoria do desenvolvimento de Piaget e a evolução

Segundo Piaget, as estruturas mentais ou orgânicas que constituem a inteligência, não são inatas (como era defendido pelo maturacionismo) nem determinadas pelo meio (como era defendido pelo behaviorismo). Elas são o produto de uma construção devido as influências do meio e a capacidade do organismo de ser influenciado e de responder a essas influências. É através das acções do indivíduo, a partir de esquemas motores, que se dá a compensação a essas influências ou perturbações do meio, ou seja, a troca do organismo com o meio, graças a um processo de adaptação progressiva, no sentido de uma constante equilibração que permite a construção das estruturas específicas para o acto de conhecer. Essas estruturas caracterizam-se, de um lado, por serem um prolongamento das estruturas orgânicas que nascem com o indivíduo e, por outro lado, por constituírem uma especialização em relação às mesmas, uma vez que essas estruturas são construídas com base na interacção do organismo com o meio.

Piaget realizou experiências com algumas espécies de plantas originárias do mediterrâneo, nos Alpes da Savóia, uma região de dois mil metros de altitude. Ele observou que as plantas reagiam ao novo meio produzindo folhas muito menores e espessas para reduzir a sua área de exposição ao frio, ao mesmo tempo que aumentavam a produção de clorofila e o poder de fotossíntese. Enquanto muitas dessas plantas voltaram à sua forma original quando transplantadas de volta para o jardim de Piaget em Genebra, algumas preservaram o seu tamanho reduzido, por inúmeros descendentes.

Piaget estudou algumas espécies de caracóis, como o Limnses Staganalis, que, em águas tranquilas, apresentava uma concha alongada. Entretanto, quando levado para as praias dos grandes lagos suíços, onde as ondas chocam violentamente contra as rochas, observou que o jovem caracol alterava a sua forma. Facto explicado por os caracóis se colarem firmemente nas rochas, contraindo fortemente a musculatura que os ligam à concha, de cada vez que uma onda se precipitava sobre eles. Essa contracção constante provocou o encurtamento da concha em desenvolvimento, até que esta adquirisse uma forma esférica. Para concluir a experiência, levou alguns desses caracóis para o seu aquário e também para uma pequena fonte de águas tranquilas e observou que os descendentes desses caracóis preservavam a forma esférica por muitas gerações. Através desta experiência, concluiu que os organismos podem adaptar-se geneticamente a um novo meio.


Repercussões da biologia na teoria de Piaget

Nas suas reflexões Piaget diverge de Darwin, o qual considerava os organismos essencialmente passivos, dependentes da mutação fortuita e da selecção natural para a sua sobrevivência. Para Piaget, pelo contrário, a adaptação é um processo dinâmico e contínuo, no qual a estrutura hereditária do organismo interage com o meio externo de modo a reconstituir-se, procurando uma melhor sobrevivência.

Pensando na filogénese humana, através da qual a espécie humana levou milhões de anos para se adaptar dinamicamente ao meio ambiente, através de um processo evolutivo que culminou na transformação do homem num ser cultural.

Voltando-se da biologia para o estudo do conhecimento, começa a perceber a continuidade entre a inteligência biológica (demonstrada até mesmo pelas plantas e pelos animais inferiores) e o conhecimento humano (no seu desenvolvimento a partir da infância). Concluiu então que o conhecimento é uma relação evolutiva entre a criança e o seu meio.

Assim, como nas experiências realizadas por Piaget, onde os caracóis reconstituíram o seu formato, sofrendo uma mudança na sua morfologia para sobreviverem num ambiente hostil, a criança reconstrói as suas acções e ideias em relação com novas experiências ambientais, adaptando-se ao meio que a cerca.

No curso deste contínuo relacionamento com o meio, a criança exibe, em algumas idades, estruturas ou organizações de acção e pensamento características a que Piaget chamou estádios do desenvolvimento intelectual.

Contudo, entendemos que a maior contribuição de Piaget talvez esteja na sua brilhante análise de como o conhecimento humano se desenvolve lentamente, para além das suas origens biológicas herdadas, através de um processo de auto-regulação baseado na resposta do ambiente, que leva a uma reconstrução interna. A habilidade de se adaptar as novas situações através da auto-regulação torna-se um elo comum entre todos os seres vivos e a base da teoria biológica do conhecimento de Piaget.

Para Piaget, a adaptação é a essência do funcionamento intelectual, assim como a essência do funcionamento biológico.

A adaptação ocorre através da organização, onde o organismo discrimina entre os vários estímulos e sensações com os quais tem contacto e os organiza nalguma forma de estrutura. Por exemplo, para o bebé é bem complexa a quantidade de sensações que recebe do meio ambiente (a relação com a sua mãe, onde recebe informações tais como o som da voz, o calor e a macieza do corpo materno, o cheiro e o sabor do leite humano, o movimento tranquilizador do embalo, entre outras). Já na criança maior, a organização pode significar um sistema de classificação que lhe permita seleccionar e rotular objectos, como por exemplo, coleccionar selos, cromos, moedas, caixas de fósforo, latas de vários produtos e muitos outros. Assim, observa-se na teoria Piagetiana que a organização está implícita na nossa herança biológica.

Princípios de sustentação da teoria

Como já vimos, na teoria Piagetiana a inteligência humana é justificada na adaptação do homem ao meio ambiente. Esta adaptação tem como sustentação dois princípios, denominados por Piaget de assimilação e acomodação.

A assimilação corresponde ao processo de recepção do ambiente, de todos os tipos de estímulo e informação, organizando-os para, em seguida, integrá-los nas formas ou estruturas existentes no organismo, criando assim novas estruturas.

A acomodação é o processo que tem por finalidade a busca e ajustamento às condições novas e mutáveis no ambiente, de tal modo que os padrões comportamentais preexistentes são modificados para lidar com as novas informações ou com o feedback das situações externas.

Portanto, a inteligência é o resultado da experiência do indivíduo, pois através da experiência, da acção e do movimento, ele, simultaneamente, incorpora o mundo exterior transformando-o e transformando-se. No primeiro caso, existe assimilação do mundo exterior e no segundo, acomodação ao mundo exterior, isto é, o indivíduo transforma-se e transforma.

Pode-se dizer, de maneira grosseira, que assimilação é o processo de entrada, seja de sensações (através de experiência somatestésicas), no contacto com objectos, pessoas, novos alimentos ou outras experiências vivenciadas no ambiente. É o processo pelo qual as coisas, pessoas, ideias, costumes e preferências são incorporados na actividade de um indivíduo. Por exemplo, ouvindo as pessoas falarem à sua volta, a criança aprende a construção das frases e o sentido da linguagem, muito antes de ser capaz de falar.

A acomodação é o processo ajustador da saída, que consiste em dirigir-se para o meio. Por exemplo, a criança começa a balbuciar em resposta à conversa em seu redor e, gradualmente, aproxima-se das palavras que está a assimilar.

Estes dois processos funcionam simultaneamente em todos os níveis: biológico, afectivo e intelectual, possibilitando tanto o desenvolvimento físico quanto o cognitivo. Na prática, podemos observar estes dois processos no desenvolvimento das crianças, como por exemplo, no bebé que recebe o seu primeiro chocalho, logo tenta assimilá-lo, levando-o à boca, enquanto se acomoda ao tamanho, textura e formato do objecto. Essa experiência, no entanto, produz uma adaptação cognitiva e não digestiva. O bebé aprende que se trata de um objecto que pode ser sugado, agitado, batido, mas não engolido e, a partir daí, modifica a sua compreensão dos objectos que leva à boca e passa a inclui-los em categorias como objectos comestíveis e não comestíveis. Dessa forma, enquanto funciona adaptativamente, o bebé desenvolve-se intelectualmente.

Piaget, refere que [...] nenhum conhecimento, mesmo perceptivo, constitui uma simples cópia do real, porque contém um processo de assimilação de estruturas anteriores.

A criança é um organismo activo e curioso, que se direcciona, experimenta e busca meios de regular o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, entre a sua realidade interior e o mundo em seu redor. Assim como o corpo busca encontrar um estado fisiológico de equilíbrio entre o exercício e o repouso, ou entre a fome e a superalimentação, também a mente da criança busca o equilíbrio entre o que compreende e o que experimenta no seu ambiente.

Esse conceito de equilíbrio faz parte dos primeiros insights da teoria Piagetiana, entendido como sendo o atingir dum estado relativamente constante num sistema de equilíbrio e coordenação em permanente mudança entre o organismo e o seu meio. Esse é um sistema aberto, no qual a resposta do ambiente contribui para um processo constante de reorganização interna e auto-reguladora.

A ênfase da teoria Piagetiana faz-se, principalmente, no processo que traz a esses estados progressivos de equilíbrio, um processo auto-regulador denominado equilibração, como se fosse um termóstato que mantém um equilíbrio constante entre o calor e o frio.

Para Piaget , a equilibração é um processo dinâmico e continuamente auto-regulador do balanceamento das mudanças acarretadas pela assimilação e a acomodação, visando alcançar um estado estável ou de equilíbrio, encarado como um factor organizador subjacente a qualquer desenvolvimento biológico ou intelectual e concebido como um mecanismo de crescimento e aprendizagem no desenvolvimento cognitivo.

Devemos entender que o desenvolvimento é uma equilibração progressiva a partir de um estado inferior até o estado mais elevado de equilíbrio. A mente visa compreender e explicar em todos os níveis, das explicações vagas e incoerentes da infância à riqueza e flexibilidade do pensamento adulto. A teoria Piagetiana concebe esse processo como sendo um mecanismo de crescimento e aprendizagem no desenvolvimento cognitivo.

Pode-se dizer que Piaget é um interaccionista e não um maturacionista como Gesell que encara o desenvolvimento como reflexo da maturação do sistema nervoso. A teoria Piagetiana encara a maturação como um mecanismo fornecedor de condições e possibilidades para o indivíduo responder ao meio ambiente, como um potencial para assimilar e estruturar novas informações a partir dele.

No sentido maturacional, o indivíduo herda uma série de estruturas biológicas (sensoriais e neurológicas) que o predispõem ao surgimento de outras estruturas mentais. O aspecto maturacional do organismo é muito importante, principalmente do sistema nervoso central que, a partir da sua organização, proporciona a interacção com o meio, com o consequente surgimento de novas estruturas mentais que possibilitam a adaptação cada vez maior do indivíduo ao ambiente social, cultural e físico. Uma criança não é capaz de pensar como um adulto porque ainda não dispõe das estruturas lógicas, das organizações de pensamento e dos métodos de raciocínio que lhe permitem lidar com os problemas dos adultos.

Esta teoria mostra que o factor experiência é muito importante, porque se refere à experiência física e empírica, tal como a criança a encontra ao brincar com uma bola, com objectos de encaixes, empurrando carrinhos, contando objectos, levantando pesos ou interagindo de outras maneiras com o meio. A partir de experiências como estas, a criança constrói dois tipos de conhecimento; primeiro acontece o conhecimento físico, que se obtém através da acção sobre objectos e de como estes reagem ou são transformados. O segundo, enquanto conhecimento lógico-matemático aparece à medida que a criança age sobre o objecto, construindo relações lógicas entre estes. Estas acções incluem comparações como mais alto, mais baixo, mais rápido ou maior; envolvem relações que existem não nos objectos, mas na mente da criança que os compara. As relações matemáticas não estão implícitas nos objectos, sendo antes construídas pela criança que os observa ou conta. Por exemplo, um lápis é apenas um objecto físico, mas dois lápis existem com uma relação criada pela mente humana. Portanto, as operações mentais emergem de acções motoras e experiências sensoriais que são interiorizadas, onde a adaptação ao mundo exterior (em termos de aprendizagem) implica uma relação dialéctica e permanente entre os dois processos dinâmicos e complementares (assimilação e acomodação).

Quanto aos chamados esquemas de acção, Piaget relata que: conhecer não consiste, com efeito, em copiar o real mas agir sobre ele e transformá-lo (na aparência ou na realidade), de maneira a compreendê-lo em função dos sistemas de transformação aos quais estão ligados estas acções.

Assim, todo o conhecimento, em todos os níveis, está ligado à acção, compreendendo-se desta forma o papel da assimilação. As acções, com efeito, não se sucedem ao acaso, mas repetem-se e aplicam-se de maneiras semelhantes às situações comparáveis. Desta forma, Piaget, chama esquemas de acção o que numa acção é transponível, generalizável ou diferenciável de uma situação seguinte, ou seja, o que há de comum nas diversas repetições ou aplicações da mesma acção. Então, conhecer um objecto implica incorporá-lo em esquemas de acção, e isto ocorre desde as condutas sensório-motoras elementares até às operações lógico-matemáticas superiores.

A criança estabelece assim a relação com o mundo exterior através da circulação entre as percepções (assimilação) e os movimentos (acomodação), sendo o conjunto de adaptações (na sua circulação materializada pela motricidade) que irá transformar a inteligência prática (sensório-motora) em inteligência reflexiva (intelectual).

Por exemplo, uma criança que teve muitas experiências físicas com um objecto concreto, tal como uma bola, pode formar uma imagem mental desse objecto e agir sobre ele, usando o pensamento da mesma forma que nas suas experiências reais do passado. Já a criança que tem privações com relação às experiências ambientais, como aquela que nunca brincou com uma bola, ficará prejudicada no seu desenvolvimento intelectual. Esta colocação um tanto simplista, mas realista, estende-se a todos os tipos de relações com objectos e com o meio ambiente.

Para Piaget , a transmissão social é constituída de informações aprendidas com outras crianças ou transmitidas por pais, professores, ou livros no processo de educação. Hoje em dia acrescentaria a esta lista a televisão e o computador.

Mas, muitas vezes, o equilíbrio da criança fica perturbado, devido à contradição ou choque de informações que recebe, quer na escola, quer em casa. Este problema é chamado de conflito cognitivo.

Ressaltamos a importância do meio ambiente na teoria Piagetiana, onde este é fundamental no que diz respeito à riqueza ou pobreza da estimulação tanto em aspectos físicos como sociais, que vão interferir directamente no desenvolvimento cognitivo. Porque a criança precisa de um ambiente rico em estímulos, onde possa manipular objectos, explorar ambientes e observar fenómenos naturais.


O que se entende por estádios de desenvolvimento

A criança, à medida que evolui, vai-se ajustando à realidade circundante, e superando, de modo cada vez mais eficaz, as múltiplas situações com que se confronta.

Os sucessivos ajustamentos da criança ao meio que se vão manifestando ao longo do seu desenvolvimento levam a que a inteligência da criança vá assumindo formas diversificadas.

Piaget refere que a aceitação da noção de estádio exige determinados pressupostos, tais como:

-Carácter integrado de cada estádio. As estruturas construídas e específicas de determinada idade da criança tornam-se parte integrante da estrutura da idade seguinte;

-Estrutura do conjunto. Os elementos constituintes de determinado estádio estão intimamente ligados entre si e contribuem conjuntamente para caracterizar determinada conduta;

-Todo o estádio tem um nível de preparação e um nível de consecução. O estádio não surge definido e acabado, mas evolui no sentido da sua superação.

- As crianças podem iniciar e terminar determinado estádio em idades diferentes. O período estabelecido para delimitar os estádios é médio.

Os estádios de Piaget colocam a tónica na função intelectual do desenvolvimento. Ele não nega a existência e a importância de outras funções, mas delimita e especifica o campo da sua investigação ao domínio da epistemologia genética.



Estádios do desenvolvimento

Cada estádio é definido por diferentes formas do pensamento. A criança deve atravessar cada estádio segundo uma sequência regular, ou seja, os estádios de desenvolvimento cognitivo são sequenciais. Se a criança não for estimulada / motivada na devida altura não conseguirá superar o atraso do seu desenvolvimento. Assim, torna-se necessário que em cada estádio a criança experiencie e tenha tempo suficiente para interiorizar a experiência antes de prosseguir para o estádio seguinte.

Normalmente, a criança não apresenta características de um único estádio, com excepção do sensório-motor, podendo reflectir certas tendências e formas do estádio anterior e/ou posterior, por exemplo : uma criança que se encontre no estádio das operações concretas pode ter pensamentos e comportamentos característicos do pré-operatório e/ou algumas atitudes do estádio das operações formais.

Estádio sensório- motor (0 - 18/24 meses)

A actividade cognitiva durante este estádio baseia-se, principalmente, na experiência imediata através dos sentidos em que há interacção com o meio, esta é uma actividade prática. Na ausência de linguagem para designar as experiências e assim recordar os acontecimentos e ideias, as crianças ficam limitadas à experiência imediata, e assim vêem e sentem o que está a acontecer, mas não têm forma de categorizar a sua experiência, assim, a experiência imediata durante este estádio, significa que quase não existe nada entre a criança e o meio, pois a organização mental da criança está em estado bruto, de tal forma que a qualidade da experiência raramente é significativa, assim, o que a criança aprende e a forma como o faz permanecerá como uma experiência imediata tão vivida como qualquer primeira experiência. A busca visual é um comportamento sensório-motor e é fundamental para o desenvolvimento mental, pois este tem que ser aprendido antes de um conceito muito importante designado por permanência do objecto. À medida que as crianças começam a evoluir intelectualmente compreendem que, quando um objecto desaparece de vista, continua a existir embora não o possam ver, pois ao saberem que esse desaparecimento é temporário, são libertas de uma incessante busca visual. A experiência de ver objectos nos primeiros meses de vida e, posteriormente, de ver os mesmos objectos desaparecer e aparecer tem um importante papel no desenvolvimento mental. Assim, podemos afirmar que a ausência de experiência visual durante o período crítico da aprendizagem sensório - motora, impede o desenvolvimento de estruturas mentais. Sendo durante este estádio que os bebés aprendem principalmente através dos sentidos e são fortemente afectados pelo ambiente imediato, mas contudo, sendo também neste estádio que a permanência do objecto se desenvolve, podemos então afirmar que, os bebés são capazes de algum pensamento representativo, muito semelhante ao do estádio seguinte, pois seria um erro afirmar que, sendo a sua fala, gestos e manipulações tão limitadas, não haveria pensamento durante o período sensório-motor. “Nada substitui a experiência”, é uma boa síntese do período sensório-motor do desenvolvimento cognitivo, pois é a qualidade da experiência durante este primeiro estádio que prepara a criança para passar para o estádio seguinte.

Estádio Pré-operatório (2 - 7 anos)

Este estádio também chamado pensamento intuitivo é fundamental para o desenvolvimento da criança. Apesar de ainda não conseguir efectuar operações, a criança já usa a inteligência e o pensamento. Este é organizado através do processo de assimilação, acomodação e adaptação.

Neste estádio a criança já é capaz de representar as suas vivências e a sua realidade, através de diferentes significantes:

- Jogo : Para Piaget o jogo mais importante é o jogo simbólico (só acontece neste período), neste jogo predomina a assimilação (Ex. : é o jogo do faz de conta, as crianças "brincam aos pais", "ás escolas", "aos médicos", ...). o jogo de construções transforma-se em jogo simbólico com o predomínio da assimilação (Ex. : Lego - a criança diz que a sua construção é, por exemplo, uma casa. No entanto, para os adultos "é tudo menos uma casa").

Inicialmente (mais ao menos aos dois anos), a criança fala sozinha porque o seu pensamento ainda não está organizado, só com o decorrer deste período é que o começa a organizar, associando os acontecimentos com a linguagem na sua acção.

A criança ao jogar está a organizar e a conhecer o mundo, por outro lado, o jogo também funciona como "terapia" na libertação das suas angustias. Além disto, através do jogo também nos podemos aperceber da relação familiar da criança (Ex. : Quando a criança brinca com as bonecas pode mostrar a sua falta de amor por parte da mãe através da violência com que brinca com elas).

- Desenho : Até aos dois anos a criança só faz riscos, sem qualquer sentido, porque, para ela, o desenho não tem qualquer significado.

A criança, aos três anos já atribui significado ao desenho, fazendo riscos na horizontal, na vertical, espirais, círculos, no entanto, não dá nome ao que desenha. Tem uma imagem mental depois de criar o desenho. Mas aos quatro anos a criança já é mais criativa e começa a perceber os seus desenho e projecta no desenho o que sente.

De um modo geral, podemos dizer que, neste estádio, o desenho representa a fase mais criativa e diversificada da criança.

A criança projecta nos seus desenhos a realidade que ela vive, não há realismo na cor, e também não há preocupação com os tamanhos. Nesta fase os desenhos começam a ser mais compreensíveis pelos adultos. A criança vai desenhar as coisas à sua maneira e segundo os seus esquemas de acção e não se preocupa com o realismo. Também aqui a criança vai utilizar a assimilação.

- Linguagem : A linguagem, neste período, começa a ser muito egocêntrica, pouco socializada, ou seja, a linguagem está centrada na própria criança. Ela não consegue distingir o ponto de vista próprio, do ponto de vista do outro e, por isso, revela uma certa confusão entre o pessoal e o social, o subjectivo e o objectivo. Este egocentrismo não significa egoísmo moral. Traduz, "por um lado, o primado da satisfação sobre a constatação objectiva... e, por outro, a deformação do real em função da acção e ponto de vista próprios. Nos dois casos, não tem consciência de si mesmo, sendo sobretudo uma indissociação entre o subjectivo e o objectivo...".Isto manifesta-se através dos monólogos e dos monólogos colectivos, (Ex. : quando num grupo de crianças estão todas a falar, dá a sensação que estão a conversar umas com as outras, mas não, estão sim todas a falarem sozinhas e ao mesmo tempo, ou seja, cada uma está no seu monólogo e assim manifesta o seu egocentrismo).

O termo egocentrismo, característica descritiva do pensamento pré-operatório, foi progressivamente sendo utilizado por Piaget, que o substitui pelo termo descentração.

A partir dos dois anos dá-se uma enorme evolução na linguagem, a título de exemplo, uma criança de dois anos compreende entre 200 a 300 palavras, enquanto que uma de cinco anos compreende 2000. Este aumento do número de vocábulos é favorecido pela forte motivação dos pais, ou seja, quanto mais forem estimulados (canções, jogos, histórias, etc.), melhor desenvolvem a sua linguagem. Neste estádio a criança aprende sobretudo de forma intuitiva, isto é, realiza livres associações, fantasias e atribui significados únicos e lógicos. Se atentarmos a uma experiência muito conhecida de Piaget em que é dado a uma criança dois copos de água com igual quantidade de líquido, embora um alto e estreito e outro baixo e largo, intuitivamente a criança escolhe o copo alto pois no seu entender este parece conter mais água.

- Imagem e pensamento : A imagem mental é o suporte para o pensamento. A criança possui imagens estáticas tendo dificuldade em dar-lhe dinamismo. O pensamento existe porque há imagem. É um pensamento egocêntrico porque há o predomínio da assimilação, é artificial. Na organização do mundo a criança dá explicações pouco lógicas.

Entre os 2 e os 7 anos distinguem-se dois subestádios: o do pensamento intuitivo e o do pensamento pré - conceptual. O pensamento intuitivo surge a partir dos 4 anos, permitindo que a criança resolva determinados problemas, mas este pensamento é irreversível, isto é, a criança está sujeita às configurações perceptivas sem compreender a diferença entre as transformações reais e aparentes. No pensamento pré-conceptual domina um pensamento mágico, onde os desejos se tornam realidade e que possui também as seguintes características:

Animismo - A criança vai dar características humanas a seres inanimados.Este animismo vai desaparecendo progressivamente, aqui salienta-se a importância do papel do adulto, na medida que, a partir, sensivelmente dos cinco anos, não deve reforçar, mas sim atenuar o animismo.

Realismo - A realidade é construída pela criança. Se no animismo ela dá vida às coisas, no realismo dá corpo, isto é, materializa as suas fantasias. Se sonhou que o lobo está no corredor, pode ter medo de sair do quarto.

Finalismo - Existe uma relação entre o finalismo e a causalidade. A criança ao olhar o mundo tenta explicar o que vê, ela diz que se as coisas existem têm de ter uma finalidade, no entanto, esta ainda é muito egocêntrica. Tudo o que existe, existe para o bem essencial dela própria. Também aqui o adulto reforça o finalismo. Vai diminuindo progressivamente ao longo do estádio, apesar de persistir mais tempo que o animismo, devido às atitudes e respostas que os adultos dão às crianças.

Com o decorrer do tempo, os pais terão de ensinar, à criança, novos conceitos, de modo a que futuramente ela não tenha dificuldade em aprendê-los.

Artificialismo - É a explicação de fenómenos naturais como se fossem produzidos pelos seres humanos para lhes servir como todos os outros objectos: o Sol foi aceso por um fósforo gigante; a praia tem areia para nós brincarmos.

Piaget, considerou a irreversibilidade uma das características mais presentes no pensamento da criança pré-operatória, para melhor entendermos este ponto, tomemos em conta a seguinte experiência:

Piaget perguntou a uma criança de quatro anos : "Tens uma irmã? Sim, e a tua irmã tem uma irmã? Não, ela não tem uma irmã". Através das respostas dadas pela criança Piaget apercebeu-se da grande dificuldade que estas têm em compreender a reversibilidade das relações. No seu entender, a criança não tem flexibilidade mental suficiente para compreender que quando uma determinada acção já está realizada podemos voltar atrás. Desta forma, podemos dizer que as estruturas mentais neste estádio são amplamente intuitivas, livres e altamente imaginativas.

Para concluir a abordagem a este estádio é importante referir que a criança ao contactar com o meio de forma activa está a favorecer a sua aprendizagem de uma forma criativa e original.

Este estádio é fundamental pois a criança aprende de forma rápida e flexível, inicia-se o pensamento simbólico, em que as ideias dão lugar á experiência concreta. As crianças conseguem já partilhar socialmente as aprendizagens fruto do desenvolvimento e da sua comunicação.

Estádio das operações concretas (7 - 12 anos)

Para Piaget é neste estádio que se reorganiza verdadeiramente o pensamento. Como já referi no estádio anterior as crianças são sonhadoras, muito imaginativas e criativas. É a partir deste estádio (operações concretas) que começam a ver o mundo com mais realismo, deixam de confundir o real com a fantasia. É neste estádio que a criança adquire a capacidade de realizar operações. Podemos definir operação como a acção interiorizada - realizada no pensamento, componível - composta por várias acções ; reversível - pode voltar ao ponto de partida. A criança já consegue realizar operações, no entanto, precisa de realidade concreta para realizar as mesmas, ou seja, tem que ter a noção da realidade concreta para que seja possível à criança efectuar as operações.

Para compreendermos qual o aspecto fundamental do período que estamos a analisar, voltamos a referir a experiência dos copos de água. Se no estádio anterior a criança não conseguia perceber que a quantidade era a mesma independentemente do formato do copo, neste estádio elas já percebem que a quantidade (volume) do líquido é a mesma, pois já compreendem a noção de volume, bem como peso, espaço, tempo, classificação e operações numéricas.

- Espaço - organiza-se pela organização diferenciada dos vários espaços. A criança vai conhecendo os vários espaços nos quais interage, organizando-os. Também aqui está presente a reversibilidade do real, onde o conceito de espaço está relacionado com o conceito de operação. O espaço isolado por si só não existe.

- Tempo - não há reversibilidade do real, o tempo existe apenas no nosso pensamento, os acontecimentos sucedem-se num determinado espaço, e o tempo vai agrupando-os.

- Peso - para que a criança domine este conceito é fundamental que compare diversos objectivos para os poder diferenciar.

- Classificação - primeiro a criança tem que agrupar os objectos pela sua classe e tamanho, depois os classificar e consequentemente adquirir conceitos.

- Operações numéricas - primeiro a criança aprende o conceito de número e seriação, por volta dos sete anos, depois a classificação da realidade, mas essa classificação vai variando conforme a aprendizagem que ela vai fazendo ao longo do tempo.

Apesar de neste estádio a criança já conseguir efectuar operações correctamente, precisa ainda de estar em contacto com a realidade, por isso o seu pensamento é descritivo e intuitivo /parte do particular para o geral). Ao longo deste período já não tem dificuldade em distinguir o mundo real da fantasia. A criança já interiorizou algumas regras sociais e morais e, por isso, as cumpre deliberadamente para se proteger. É nesta fase que a criança começa a dar grande valor ao grupo de pares, por exemplo, começa a gostar de sair com os amigos, adquirindo valores tais como a amizade, companheirismo, partilha, etc., começando a aparecer os líderes.

Progressivamente a criança começa a desenvolver capacidade de se colocar no ponto de vista do outro, descentração cognitiva e social. Nesta fase deixa de existir monólogo passando a haver diálogo interno. O pensamento é cada vez mais estruturado devido ao desenvolvimento da linguagem. A criança tem já mais capacidade de estar concentrada, e algum tempo interessada em realizar determinada tarefa.

Estádio das operações formais (11/12 - 15/16 anos)

A transição para o estádio das operações formais é bastante evidente dadas as notáveis diferenças que surgem nas características do pensamento. É no estádio operatório formal que a criança realiza raciocínios abstractos, não recorrendo ao contacto com a realidade. A criança deixa o domínio do concreto para passar às representações abstractas. É nesta fase que a criança desenvolve a sua própria identidade, podendo haver, neste período problemas existências e dúvidas entre o certo e o errado. A criança manifesta outros interesses e ideais que defende segundo os seus próprios valores e naquilo que acredita.

O adolescente pensa e formula hipóteses, estas capacidades vão permitir-lhe definir conceitos e valores, por exemplo estudar determinada disciplina, como a geometria descritiva e a filosofia. A adolescência é caracterizada por aspectos de egocentrismo cognitivo, pois o adolescente possui a capacidade de resolver os problemas que por vezes surgem á sua volta.

Como se efectua a passagem para o estádio seguinte

Por vezes, as crianças observam os adultos ou outras crianças mais velhas quando estão a resolver os problemas. Notam que o fazem de uma maneira diferente da sua, por meio de regras que pertencem a outro estádio desenvolvimento e, por isso, sentem-se perdidas. Mas este sentimento, que se deve à disparidade entre elas e os mais velhos na resolução de problemas, tem os seus pontos benéficos. A criança procura então reduzir a distância que a separa das outras, mais velhas e, por isso, aprende novas regras. Se a criança for suficientemente madura imitará o modelo de acção usado pelos mais velhos e, por consequência, iniciará a sua entrada no estádio seguinte. A aprendizagem de conceitos novos e de esquemas de comportamento pode pois ser efectuada socialmente, pela observação de outras pessoas.

|http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/psicologia/psicologia_trabalhos/cresccriancapiaget.htm






terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Torne o seu filho mais inteligente

Se acha que ter um filho inteligente é um factor genético ou obra e graça do "Espírito Santo" está enganada. Estudos científicos indicam que os pais podem (e devem) cultivar e exercitar o cérebro dos seus filhos. Saiba como. Sabia que a inteligência não é apenas um factor genético, mas na maioria das vezes pode ser resultado de uma prática constante ou exercícios adequados ao desenvolvimento cerebral do seu filho? Como mãe, você pode realmente interferir na inteligência do seu filho, basta ter em conta algumas abordagens para promover a aprendizagem da criança ou mesmo incentivar o seu desenvolvimento intelectual. Gwen Dewar, a antropóloga e criadora do site "Parenting Science ", faz pesquisas científicas associadas ao estudo da evolução psicológica e ao quociente de inteligência cerebral e emocional, estudando ainda os diversos estereótipos infanto-juvenis. Uma das suas pertinentes opiniões que me chamou particularmente a atenção está relacionada com desempenho escolar. Gwen diz que é errado premiar uma criança por ter obtido bons resultados na escola, ou por ter mostrado um sinal de inteligência num determinado momento. Isso não aumenta a auto-estima da criança ou sequer melhora o seu desempenho escolar. A investigadora é da opinião que este tipo de comportamentos dos pais não passam de ideias pré-concebidas e que, pelo contrário, não acentua em nada a inteligência do seu filho . Para esta antropóloga, há outras formas de exercitarmos os cérebros dos nossos filhos. Por isso, vamos a essas abordagens: Estratégias para fomentar o desenvolvimento cerebral dos nossos filhos 1. Amamentar o seu filho: pode ser muito importante a longo prazo, já que o leite materno é um bom contributo para o melhor funcionamento do cérebro, fornecendo nutrientes essenciais para a saúde do seu filho, bem como fortalecer o seu quociente de inteligência cerebral e emocional. 2. Atividade física: é fundamental para o desenvolvimento psicológico da criança. A actividade física promove o desenvolvimento cerebral da criança Integrar o seu filho em equipas de desporto, desenvolve em muito a confiança da criança, contribui também para um elevado espírito de liderança e, sobretudo, promove uma forte motivação perante desafios. 3. Jogos de consolas ou de computador: por mais desajustado que isto possa parecer, a cientista, baseando-se num estudo feito pela Universidade de Rochester, afirma que ao terem contacto com esse tipo de jogos, as crianças exercitam o cérebro de forma a reconhecerem ou a aprenderem sinais ou indicações visuais mais rapidamente do que aquelas que nunca o fazem ou fizeram. Por isso mesmo é que muitos professores ingleses começaram a utilizar na sala de aula jogos de consolas para praticar determinados exercícios. De qualquer forma, o que se deve ter em atenção quando nos referimos a este tipo de jogos é que o mais importante é não incentivarmos os jogos que sejam violentos e solitários. No entanto, devemos autorizar de vez em quando todos os outros que desenvolvam o pensamento: os jogos estratégicos, os jogos com a capacidade de planeamento ou ainda os que promovem o espírito de equipa. 4. Incentivar a leitura: é sem dúvida uma forma de melhorar a aprendizagem e contribui eficazmente para o desenvolvimento cognitivo da criança. Mesmo que o seu filho ainda não saiba ler, leia-lhe histórias todos os dias. Faz exercitar muito a sua capacidade de atenção. 5. Atividades extra curriculares: são fundamentais para a capacidade de interagir e de incentivar a curiosidade do seu filho. Os passatempos ou hobbies devem ser uma constante diária na vida do seu filho. Não se esqueça que atrás deste tipo de atividades nascem perguntas, desafios, novos interesses e novos conhecimentos. Por fim, podem desafiar o pensamento critico do seu filho, com a forte probabilidade de criar uma riqueza de auto-consciência. 6. Tocar um instrumento musical: ajuda a moldar o cérebro significativamente. Aprender a tocar um instrumento musical ajuda a moldar o cérebro positivamente Os neurocientistas que estudaram a relação existente entre a música e a inteligência verificaram que os músicos têm cérebros completamente diferentes : "por exemplo, se examinarmos o cérebro de um teclista veremos que a região do cérebro que controla os movimentos do dedo é alargada (Pascual-Leone, 2001)." "Além disso, em testes cerebrais realizados em crianças entre os 9 e os 11 anos de idade, as crianças que tocam instrumentos musicais têm um volume com mais massa cinzenta, tanto no córtex sensório-motor e os lobos occipital (Schlaug et al 2005), do que as crianças que não tocam qualquer instrumento musical." Na verdade, os músicos têm muito mais massa cinzenta em várias regiões cerebrais do que os não-músicos. Relativamente a este assunto, sugiro a consulta de um outro artigo que já publiquei aqui no blogue: "Qual é o instrumento mais adequado para a idade do seu filho? " 7. Adeus à fast food. Por mais que o seu filho goste de ir ao McDonald's, ou de comer pizzas, ou até por mais que lhe dê jeito a si fazer para o jantar deles uns hambúrgueres ou uma salsichas rápidas, pense muito bem antes de agir. Está cientificamente comprovado que uma alimentação saudável é a base para o desenvolvimento mental e motor na primeira infância e especialmente durante os primeiros anos de vida. O melhor que podemos fazer é dar-lhes alimentos ricos em ferro para o desenvolvimento saudável do tecido cerebral. Saiba que os impulsos nervosos são transmitidos de forma mais lenta se houver deficiência de ferro. Retire de uma vez por todas da alimentação deles os alimentos que contenham emulsionantes, gorduras e açucares. Alimentos frescos e cozinhados de uma forma saudável são os mais indicados para crianças em idade de aprendizagem. 8. Sono e pequeno-almoço: deitar cedo e dormir cerca de 10 horas, a juntar a um pequeno almoço reforçado é fundamental para o desenvolvimento do coeficiente de inteligência do seu filho. As crianças devem ter uma rotina de sono diária e que deve ser respeitada a cima de todas as coisas. O ideal é dormirem pelo menos 10 horas por dia, já que isso lhes vai proporcionar uma boa concentração escolar. Os seus filhos devem tomar um pequeno almoço reforçado para melhorar a memória, a concentração e a aprendizagem na escola. Em contrapartida, as crianças que não tomam um pequeno almoço em condições, e que não dormem o suficiente, tendem a cansarem-se mais facilmente, irritam-se com maior facilidade e reagem mais lentamente a novos desafios.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TEORIA PSICOLÓGICA BEHAVIORISTA, AMBIENTALISTA, OU COMPORTAMENTALISTA

No seu desenvolvimento a teoria behaviorista baseou-se nos seguintes pressupostos:

1- Compreende a associação entre o estímulo e a resposta como o aspecto essencial da aprendizagem.

2- O reducionismo ambientalista é mais ou menos radical conforme o momento ou o investigador.

3- O ambientalismo está na base de comportamentos considerados passivos no processo de aprendizagem.

4- A crença de que todos os comportamentos, por mais complexa que sejam, se podem separar em elementos simples.

5- A universalidade das leis da aprendizagem, em qualquer ambiente ou referida a qualquer tipo de organismo.

As posturas behavioristas centraram-se na utilização de três ideias principais:

1 – Reducionismo: A experiência pode ser decomposta nas suas partes elementares. Mediante o método analítico pode-se estudá-las separadamente para estabelecer uma explicação comum.

2 – Causalidade: Tudo é explicável em forma de relações simples de causa-efeito.

3 – Determinismo: O sentido mecanicista que se dá à ordem natural das coisas leva a afirmar que tudo está predeterminado no mundo, e em última instância, o comportamento segue o rumo das leis naturais.”

A partir de um conjunto de princípios específicos da aprendizagem, que permitiam explicar a conduta do indivíduo ou animal, foram desenvolvidos pelo behaviorismo, dois modelos teóricos de aprendizagem, o CONDICIONAMENTO CLÁSSICO e o CONDICIONAMENNTO OPERANTE.

O fundamentação teórica, a partir da experimentação e da formulação experimental de princípios gerais, à semelhança do que acontece com as ciências naturais, estruturou-se ao longo das primeiras décadas do século XX nos Estados Unidos e na Europa.

PRESSUPOSTOS ESSENCIAIS DO CONDICIONAMENTO CLÁSSICO

1 – Todo o comportamento animal – incluindo o do homem – pode ser estudado em termos de estímulos e respostas.

2 –É possível conhecer e controlar a conduta na medida que os estímulos permitem prever respostas e vice-versa.

3 – Segundo Leahey, referindo-se a Watson: (...)” a aprendizagem é um processo inconsciente, de maneira a que a consciencia não desempenhava nenhum papel no aperfeiçoamento do pensamento. (...) Todo o pensamento ocorre na musculatura periférica (...).

É obvio que Watson desejava reformular os métodos, problemas e objectivos da psicologia. Substituir a introspecção pelo condicionamento clássico; as questões da atenção, do sentimento, do pensamento e a descrição da consciência, pelo problema da aprendizagem. O objectivo da explicação psicológica seria substituído pela predição prospectiva e o controle da conduta seria concebido segundo o modelo da física”.

A) SEGUNDO IVAN PETROVC PAVLOV (1849/1936 )

O condicionamento clássico, foi originalmente estudado por Pavlov que iniciou as suas pesquisas com um cão, em laboratório. Essa forma de condicionamento é o fundamento de

uma série de comportamentos reflexos involuntários.

Ao descobrir e iniciar a investigação do condicionamento clássico, como método de análise da conduta, Pavlov, através dos seus estudos sobre a conduta reflexa, estabeleceu as bases da Psicologia da Aprendizagem comportamentalista. Para ele o processo de aprendizagem consistia na formação de uma associação entre um estímulo e um resposta aprendida através da contiguidade, envolvendo alguma espécie de conexão no sistema nervoso central entre um S (estímulo) e um R (reflexo ou resposta).

Pavlov tentou associar, em experiências com animais em laboratório, um estímulo neutro (som) com uma resposta (salivação) que em princípio estava associado a outro estímulo (a comida).

B) SEGUNDO JOHN B.WATSON (1878/1958) -Partindo duma base empirista, Watson foi o iniciador da escola behaviorista, considerou a pesquisa animal a única verdadeira por ser extrospectiva e não mentalista. Com Watson, a Psicologia mudou o seu foco da consciência, dos fenómenos psíquicos, para o comportamento, da subjectividade introspectiva para os dados observáveis e verificáveis. Sofreu influência da filosofia empírista de John Locke e da psicologia fisiológica de Ivan Pavlov, de quem aceitou o condicionamento clássico para explicar a aprendizagem, admitindo que nascemos com certas conexões de estímulo-resposta chamados reflexos.

Watson foi o primeiro representante do ambientalismo, lançou o behaviorismo e transformou o estudo da aprendizagem num processo pelo qual a conduta de um organismo muda como resultado da experiência. Afirmou que não há limite para o efeito do ambiente sobre a natureza humana.

De acordo com GOULART destacam-se três pontos fundamentais no pensamento de Watson:

1 – A rejeição da introspecção como fonte insatisfatória de dados pela falta de objecvidade.

2 – A crença de que os estímulos ambientais determinam o comportamento humano.

3 – A afirmativa de que o efeito do ambiente se dá principalmente através de um processo de condicionamento de actos reflexos ou involuntários.

PRESSUPOSTOS ESSENCIAIS DO MODELO DE CONDICIONAMENTO INSTRUMENTAL OU OPERANTE:

A) EDWARD LEE THORNDIKE (1874/1949) - Thorndike foi um dos pioneiros das tentativas para compreender a aprendizagem dos animais através da realização de experiências. Para ele, aprender consistia em estabelecer uma conexão entre uma resposta e a produção de uma situação agradável e que a repetição de um acto que causava um resultado agradável, aumentava a probabilidade de ocorrência deste acto – Lei do Efeito. Fez da aprendizagem, particularmente a aprendizagem por consequências recompensadoras, um conceito central da psicologia, estabelecendo, assim, os princípios do condicionamento operante.

O seu trabalho foi influenciado por várias correntes, dentre elas estão:

1 – Teoria Evolucionista de Darwin – aproximou o comportamento humano e animal.

2 – Tradição Empirista – presumiu que a aprendizagem é a formação de laços associativos, ou conexões, processo de ligação de acontecimentos físicos (estímulos e respostas) e acontecimentos mentais (coisas sentidas ou percebidas), em várias combinações. Thorndike achava que o principal caminho para a formação de conexões do tipo S-R era através de ensaio e erro, ao acaso.

Para Thorndike a aprendizagem, é o processo (passivo, mecânico e automático) de seleccionar e associar unidades físicas e mentais, gravando as respostas correctas e eliminando as incorretas, como resultado de suas consequências agradáveis (recompensa) ou desagradáveis (punição). A esse gravar e eliminar deu o nome de consequências da Lei de Efeito, segundo a qual, se consolida a resposta seguida de satisfação e tende a desaparecer a seguida de castigo.

De acordo com BIGGE, Thorndike formulou “leis” da aprendizagem a saber:

1 –A lei de prontidão – quando uma unidade de condução (neurónio e sinapse envolvidos no estabelecimento de uma ligação ou conexão) está pronta para conduzir, conduzir é gratificante e não conduzir é irritante.

2 – A lei do efeito –uma resposta é fortalecida se seguida de prazer e enfraquecida se seguida de dor ou castigo.

3 – A lei do exercício ou da repetição – quanto mais um estímulo-resposta for repetido e se conecte com uma recompensa, será retido por mais tempo.

B) B.F. SKINNER (1904/1990) - “A psicologia de Skinner, behaviorismo operante, é uma visão moderna das primeiras psicologias mecanicistas de estímulo-resposta, como o conexionismo desenvolvido por Thorndike e o behaviorismo desenvolvido por Watson”.

Psicologia mecanicista pressupõe que todas as acções humanas são reações sequenciais a estímulos internos ou externos. (...) Skinner, como Thorndike e Watson, considera que o ser humano é neutro e passivo e que todo o comportamento pode ser descrito em termos mecanicistas sequenciais. (...) para eles a Psicologia é a ciência do comportamento”. (BIGGE)

Skinner apresentou experimentalmente o condicionamento instrumental ou operante, como alternativa ou complemento ao condicionamento clássico de Watson. A questão básica para ambos os modelos era o estabelecimento de respostas a factores determinantes. Enquanto o comportamento reflexo ou respondente (condicionamento clássico) é controlado por um estímulo precedente, o comportamento operante (condicionamento instrumental ou operante) é controlado pelas suas consequências – estímulos (reforços) que se seguem às respostas.

→No condicionamento operante, um operante (resposta) é fortalecido pelo seu reforço ou enfraquecido pela sua extinção.

→Um operante é uma série de actos ou acções que, pelas consequências que geram, são fortalecidos ou enfraquecidos de modo a aumentar ou diminuir a probabilidade da sua ocorrência. Contudo, não é a resposta específica (R) que é fortalecida, mas a tendência geral em emitir a resposta.

→O comportamento opera sobre o ambiente e gera consequências. As consequências que fortaleceram o comportamento são chamadas reforço, que se refere a qualquer evento ou estímulo que aumenta a força de algum comportamento operante.

Segundo COUTINHO E MOREIRA Skinner classificou assim os reforços presentes na relação do indivíduo com as estimulações do meio:

1. Reforço Positivo: é todo o estímulo cuja apresentação após uma resposta, aumenta a probabilidade da sua ocorrência, isto é a força da conexão resposta-estímulo.Quando atendemos aos desejos de uma criança que faz birra, estamos a fortalecer o seu comportamento de fazer birra, pelas consequências que gera.

2. Reforço Negativo: Refere-se a todo o estímulo aversivo que, quando retirado, aumenta a probabilidade de ocorrência de uma certa resposta. A retirada do estímulo aversivo (dor de cabeça) pelo uso de comprimidos aumenta o procedimento de tomar comprimidos.

3. Reforço Primário: São estímulos relacionados com as funções de sobrevivência, que têm importância biológica para o organismo.Comida, água, contacto sexual, afectividade, entre outros, por estarem ligados a funções vitais.

4. Reforço Secundário: São estímulos condicionados pelos primários, como por exemplo, o dinheiro que mesmo não sendo, directamente, de importância biológica para o indivíduo, é um meio de se conseguir alimentos e outras satisfações ligadas à sobrevivência.

Os reforços têm como objectivo aumentar a probabilidade de resposta, assim como na sua ausência a resposta torna-se menos frequente; isto é a extinção operante.

O enfraquecimento e extinção de uma resposta é a diminuição da frequência de uma resposta ou a supressão desta resposta, ainda que temporária, pela não aplicação do reforço incompatível ou punição – não atender a criança que dá birra, é enfraquecer este comportamento até à sua extinção.

Skinner considerou que o propósito da psicologia é predizer e controlar o comportamento dos organismos individuais. Limitou o estudo psicológico cientifico ao comportamento observável do organismo através da observação sensorial e definiu a Psicologia como a ciência do comportamento manifesto.

O comportamento é ”(...) o movimento de um organismo ou das suas partes num quadro de referencias oferecido pelo próprio organismo ou por vários objectos externos ou campo de força” (Skinner).

A aprendizagem é definida como uma mudança na probabilidade de resposta, quase sempre provocada por condicionamento operante, processo pelo qual uma resposta (ou operante) torna-se mais provável ou mais frequente, porque o operante é fortalecido – reforçado.

APRENDIZAGEM ESCOLAR E AS TEORIAS DO CONDICIONAMENTO

As teorias que explicam a aprendizagem, através do condicionamento reflectem uma concepção empirista do desenvolvimento e da aprendizagem humanos, uma vez que o seu pressuposto básico é o de que forças externas ao indivíduo são os determinantes principais do seu comportamento. Dentro de tal visão o indivíduo é sempre o paciente de um processo que ocorre, na maioria das vezes, à revelia da sua vontade.

O modelo do condicionamento operante é a teoria behaviorista que mais teve aplicação na aprendizagem escolar, e para Skinner ensinar é planear um programa de contingências de reforço que permita ao aluno aprender novas condutas.

TEORIAS DO CONDICIONAMENTO E A PROGRAMAÇÃO DE OBJETIVOS DE ENSINO

A ênfase que o modelo pedagógico tecnicista dá à formulação muito precisa de objectivos educativos parece ser suficiente para uma programação eficaz, de desenvolvimento de processos de aprendizagem necessários, em vez de tomá-los como “(...) primeiro passo para estudar a acção que os processos de ensino tem que desenvolver para que, estimulando e guiando os processos de aprendizagem, o aluno alcance de alguma forma, os objectivos propostos. O projecto consiste em prever o processo de ensino mais adequado para despertar o processo de aprendizagem nas condições precisas para que o aluno alcance as metas pedagógicas. Partir de objectivos claros e definidos é fundamental adequar o projecto que prefigura tanto o processo de ensino como o de aprendizagem”. (Sacristán)

A crítica realizada pelo autor citado, estabelece que esta pedagogia visa através da educação a mudança direccionada do comportamento, definindo com exactidão os objectivos operacionais que devem ser alcançados para promover estas mudanças, especificando:

1. O que o aluno deve fazer em termos de conduta final;

2. que objectivos específicos, o aluno deve alcançar, através das estratégias de ensino (acções), para manifestar a conduta prevista no objectivo geral.

Assim, surgem muitas interrogações como:

- Quantos objectivos específicos são necessários para se considerar plenamente alcançado um objectivo geral?

- Quando estará esgotado o mundo do observável, o significado de um conceito ou de um objectivo geral?

- Quais são os critérios de validação de uma hierarquia de objectivos?

- Que indicações são oferecidas de como conseguir desenvolver e dinamizar os processos necessários que influenciam o ensino?

Concluindo Sacritán argumenta:

“(...) uma psicologia que descreve o ser humano como algo estático, não pode ajudar os educadores a estabelecerem uma metodologia pedagógica para alcançar esses resultados educativos”.

AS OBJECÇÕES ESTABELECIDAS AO BEHAVIORISMO:

1 – Objecção à possibilidade de generalizar os resultados de investigação com animais ao comportamento humano – a conduta humana responde a princípios totalmente distintos dos que regem a conduta animal.

2 – Objecção ao principio básico do behaviorismo de identificação entre aprendizagem e comportamento manifesto, pois a aprendizagem é um evento ou um conjunto de eventos inobserváveis.

3 – Objecção à semelhança entre as condutas elementares dos animais com as condutas complexas humanas. Tornando o behaviorismo um enfoque reducionista no que se refere à aprendizagem humana.

4 – Objecção à consideração behaviorista do conhecimento como uma soma de informações construídas de forma linear, prescindindo por completo dos processos cognitivos (mentais).

5 – Objecção à ênfase nos resultados obtidos e nas actividades mecânicas e não nos processos internos e nas actividades criativas e descobridoras do indivíduo que aprende.

|Maria C. de Oliveira Parreiras (texto adaptado).

Fontes:

Do texto: www.robertexto.com

Dos esquemas sobre o behaviorismo: http://iafmagalhaes.blogspot.com/

Para saber mais:

- A reflexologia de Pavlov (Ficha de trabalho)


- O behaviorismo de Watson (Ficha de trabalho).


Actividades:

1. O que é o behaviorismo (comportamentalismo)? Caracterize, em traços gerais, esta corrente da Psicologia.
2. Defina o condicionamento clássico.
3. Descreva e interprete a experiência de Pavlov.
4. Defina o condicionamento operante.
5. Porque é que a lei do efeito de Thorndike é importante para estabelecer as bases do condicionamento operante? Justifique.
6. Descreva e interprete a experiência de Skinner.
7. Como é que o behaviorismo explica o desenvolvimento do ser humano? Na sua resposta deve centrar-se na teoria de Skinner (condicionamento operante) e deve ter em conta a relação entre a hereditariedade e o meio ao peso que cada um destes tem no desenvolvimento.
8. No que se refere ao desenvolvimento do ser humano, confronte a perspectiva maturacionista (Gesell) com a perspectiva behaviorista (Skinner).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ciganos não são geneticamente diferentes



Os ciganos não têm uma marca genética ou biológica distintiva, a categoria resulta assim de uma construção social, conclui um estudo cientifico.

Os ciganos não têm individualmente uma marca genética ou biológica distintiva, conclui um estudo português publicado recentemente numa revista internacional, que descobriu que as populações ciganas europeias têm origem no noroeste do subcontinente indiano.
"Não há nenhum gene de 'ciganidade'. As comunidades ciganas, como a portuguesa, não são compostas por indivíduos que tenham uma 'marca' genética ou biológica distintiva", explicou à agência Lusa António Amorim, coordenador do estudo do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (IPATIMUP).
Assim, a categoria 'cigano' revelou-se mais como uma construção social, uma atitude social de auto-identificação e de identificação pelos outros.
"Geralmente pensamos que têm determinadas características e que são portadores de qualquer coisa distintiva. O que se verifica, de facto, é uma atitude social de auto identificação e de reconhecimento pelos outros, mas não corresponde a nada individualmente verificável do ponto de vista genético", refere o investigador.

Desdramatizar atitudes xenófobas

António Amorim admite que esta conclusão pode servir para "desdramatizar questiúnculas" ou atitudes xenófobas que surjam em relação às comunidades ciganas.
Contudo, o objetivo principal do estudo, que veio publicado na revista internacional PLos ONE, foi confirmar a origem e raiz comum das populações ciganas e traçar o percurso das suas migrações.
Os investigadores tinham já analisado em anteriores estudos as linhagens masculinas e marcadores genéticos com transmissão independente do sexo das populações ciganas portuguesas.

Ascendentes indianos

Agora, o estudo centrou-se nas linhagens genéticas maternas e veio confirmar que a origem destas populações se localiza no noroeste do subcontinente indiano (estado do Punjab).
Concluiu-se ainda que as suas migrações levaram a diferentes graus de mistura com as diferentes populações locais.
Ao contrário da crença atual, explica António Amorim, as comunidades ciganas atuais são geneticamente bastante diversificadas e incorporaram de forma diversa os elementos genéticos das várias populações europeias.
A incorporação de genes de origem europeia é maior quanto maior for a distância geográfica do ponto de origem e à medida que aumenta também o tempo decorrido na migração.
Na investigação foram analisadas diretamente 214 pessoas não aparentadas da Península Ibérica (138 das quais de Portugal), tendo os investigadores portugueses contado com a colaboração de cientistas catalães e de um austríaco.
http://aeiou.expresso.pt/ciganos-nao-sao-geneticamente-diferentes=f627935

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Duração da gravidez depende da placenta


Período de gestação é diferente nas espécies. Ligação do feto à mãe é chave.

O tempo de gestação difere muito entre as espécies de mamíferos. Nove meses nos humanos, seis no babuíno, três no leopardo, três semanas no rato, e por aí fora. Qual é o motivo para tamanhas disparidades? Este mistério com cem anos acaba de ser resolvido. A resposta está na complexidade da estrutura da placenta.

Uma equipa de investigadores das universidades britânicas de Durham e Reading estudou 109 espécies de mamíferos e descobriu que, apesar de também existirem outros factores envolvi- dos nesta questão, como a dimensão dos indivíduos das diferentes espécies - quanto maiores são, maior é a tendência para gestações mais longas -, a chave está na estrutura da placenta que liga a mãe ao feto. Quanto mais complexa é a forma da placenta, menos tempo de gestação é necessário para o desenvolvimento dos filhos. A descoberta foi publicada ontem na revista científica American Naturalist.

A investigação, que foi coordenada por Isabella Capellini, da Universidade de Durham, mostrou que em alguns mamíferos o ritmo de crescimento dos embriões e fetos na gravidez chega a ser duas vezes superior ao de outros, e que esta maior rapidez está directamente ligada à complexidade da placenta e também à maior ou menor ligação, através destes tecidos, entre a mãe e o filho. As coisas funcionam assim: quanto mais complexa é a estrutura, e quanto mais ligações existem entre a placenta e o novo ser, mais rápido é o período de gestação.

É exactamente isso que acontece em animais como os leopardos ou os cães. A placenta que se forma nestas espécies é extremamente complexa e a ligação entre ela e os tecidos do feto estabelece--se através de uma densa rede de conexões, como não se observa, por exemplo, nos seres humanos.

"Nos seres humanos, a placenta tem uma ramificação simples como se fossem dedos, e as conexões entre os tecidos da mãe e os do feto são limitadas", explica Isabella Capellini. E sublinha que nos leopardos, por exemplo, essa rede de ligações é muita densa, "criando uma área de transferência de nutrientes muito maior", e permitindo assim um ritmo mais rápido de crescimento do feto.

O estudo mostra, assim, que a ligação entre mãe e feto é muito mais complexa do apenas a da troca sanguínea, que até agora era olhada como a chave do problema.

|Filomena Naves, DN

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nasceu a primeira forma de vida artificial


Uma bactéria, comandada por uma molécula de ADN sintético, conseguiu reproduzir-se da forma mais natural. O resultado, publicado na revista Science, tem aplicações e implicações – científicas e filosóficas – ainda em grande parte desconhecidas.


Na fotografia, as colónias de células, com uns 70 micrómetros de diâmetro, parecem diminutos ovos estrelados com a gema azul. Graças a isso, sabemos que não estamos a olhar para uns microrganismos quaisquer, mas para as bactérias criadas por cientistas no laboratório. Vida artificial, fabricada de raiz num pratinho de vidro, a partir dos seus componentes genéticos elementares.

A nova bactéria foi feita “a partir de quatro frascos de compostos químicos”, gosta de repetir Craig Venter nas entrevistas que tem concedido à imprensa (sob embargo) nos últimos dias. Com os seus colegas, o conhecido “caça-genes” norte-americano acaba de inaugurar oficialmente a “era da biologia sintética”. Cada um desses quatro “frascos”, entenda-se, contém uma das "letras" do "alfabeto" com que se escreve o ADN – A, T, G, C –, as moléculas de base que compõem esse grande livro da vida genético.

A equipa do J. Craig Venter Institute, EUA, já tinha anunciado várias vezes o que vinha aí. Mas na realidade, a sua saga, que começou há mais de 15 anos e custou 40 milhões de dólares, foi pautada, sobretudo desde 2007, por episódios muito excitantes – e também por obstáculos que fizeram os autores temer o fracasso. “Demorou muito mais tempo do que poderíamos ter imaginado”, salienta Venter.

Mas já está – e o nascimento desta primeira forma de vida artificial ficará registado para a posteridade nas páginas da edição de sexta-feira da revista Science (e na Web, desde hoje). “Esta é a primeira célula sintética jamais fabricada”, afirma Venter, “e dizemos que é sintética porque a célula é totalmente derivada de um cromossoma sintético.”

Peças de lego

Em 2007, a equipa mostrou que era possível transplantar o genoma de bactérias de uma espécie para bactérias de outra espécie semelhante e fazer com que a segunda mudasse de espécie, adquirindo a da primeira – isto é, trocasse a sua própria identidade pela do seu novo ADN. No ano seguinte, conseguiram sintetizar na íntegra o genoma de uma bactéria.

Bastava agora, para criar um ser vivo artificial, combinar as duas coisas. Assim obter-se-ia uma bactéria cujo ADN fora retirado e substituído por um ADN diferente – e desta vez, completamente fabricado pelos cientistas. Esperava-se que esta bactéria se comportasse como um ser vivo natural, usando o ADN sintético como património genético para se reproduzir.

Uma primeira dificuldade técnica foi simplesmente o facto de não existir tecnologia que permita construir moléculas do tamanho do ADN, composto pelo encadeamento de centenas de milhares de pares de bases A, T, G, C. Ora, o ADN da bactéria utilizada nas experiências, Mycoplasma mycoides, contém mais de um milhão de pares de bases.

Os cientistas começaram por comprar a uma empresa especializada os cerca de 1000 bocadinhos, cada um com uns 1000 pares de bases, que constituem esse ADN bacteriano. Recorda Venter: “Foi como ter uma caixa de peças de lego e ter de as montar.”

Introduziram as peças dentro de leveduras (uma máquina natural de desfiar ADN) e obtiveram peças mais extensas; a seguir, introduziram-nas dentro de bactérias Escherichia coli e sintetizaram cadeias ainda maiores – antes de as voltarem a pôr dentro de leveduras. No fim, tinham um genoma inteiro de Mycoplasma mycoides, totalmente fabricado no laboratório.

Contudo, o ADN sintético era um pouco diferente do ADN natural de Mycoplasma mycoides, porque entretanto os cientistas tinham eliminado 14 genes potencialmente patogénicos (para as cabras) e acrescentado várias “marcas de água” – sequências de letras do ADN facilmente reconhecíveis como artificiais: um sítio de Internet, os nomes dos elementos da equipa e várias citações famosas, “para dar um toque mais filósofico à coisa”, frisa Venter.

Um bug microscópico

Mas o mais difícil foi fazer com que o novo ADN funcionasse dentro das células hospedeiras – e de facto, da primeira vez que os cientistas introduziram, esperançados, o genoma sintético nas células da bactéria Mycoplasma capricolum... nada aconteceu. Tal e qual especialistas de software, a equipa andou durante três meses a fazer debugging do código do ADN, explica um artigo jornalístico que acompanha a publicação na Science. Finalmente descobriram, há cerca de um mês, que o que estava a empatar tudo era um erro numa única letra do código! Os ovos estrelados com gema azul começaram a proliferar.Nem toda a gente concorda em dizer que a nova bactéria é totalmente sintética, uma vez que foi preciso introduzir o ADN artificial dentro de uma célula viva já existente. Mas isso não impede os especialistas ouvidos pela Science de saudarem os resultados. Venter, quanto a ele, não tem dúvidas de que a bactéria seja totalmente sintética: “Após algumas replicações, não resta absolutamente nada de M. capricolum nas novas células”, argumenta. Novas células que produzem unicamente – e da forma mais natural do mundo – proteínas específicas de M. mycoides.

Por enquanto, o processo não é eficiente. Mas as aplicações futuras podem ser coisas como a criação de algas produtoras de petróleo (Venter já tem um “grande contrato” com a Exxon) ou que reduzem “em 99 por cento” o tempo de fabrico das vacinas contra a gripe sazonal (em colaboração com a Novartis).
20.05.2010
|Ana Gerschenfeld, Público

O Menino Selvagem

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