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domingo, 20 de março de 2011

Livro "Portugal invísível" - O drama do assédio moral


Inspirados pelo livro La France invisible, os 16 autores deste livro, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, procuram mostrar fenómenos da realidade portuguesa que são menos visíveis socialmente.
Os coordenadores António Dornelas, Luísa Oliveira, Luísa Veloso e Maria das Dores Guerreiro, consideram que os aspectos focados são, nalguns casos, invisíveis “porque ocorrem na esfera da privacidade dos indivíduos e das famílias” e que, noutros casos, fazem parte do mundo oculto do trabalho e das empresas (trabalho clandestino, assédio moral) ou não são facilmente perceptíveis ao entendimento do cidadão comum (mercados financeiros e agências de rating).
Mostrando razões para a ocultação destas situações, os autores querem saber de que forma e em que medida “a parte ‘invisível’ da realidade social condiciona e influencia as decisões tomadas no lado ‘visível’”. E, citando os organizadores da obra francesa, acrescentam que “a existência de invisíveis numa sociedade que dispõe de inúmeros instrumentos para se conhecer convida a repensar a questão dos usos sociais dos dispositivos de acção pública e das instituições” (Beaud, Confavreux, e Lindgaard, 2006).
Em nove capítulos, os autores, com formações variadas – da Psicologia à Sociologia, passando pela Economia e pela Saúde Pública –, fazem um retrato do país oculto, que a leitura deste livro tornará mais transparente.
www.gulbenkian.pt
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Assédio moral tem-se agravado com transformações laborais, diz investigadora

Não há estatísticas, porque as pessoas não as denunciam, mas as situações de assédio moral têm-se agravado, afectando homens e mulheres, velhos e novos, realça a socióloga Luísa Veloso.

Não sendo um problema social “novo”, o assédio moral tem vindo a adquirir “uma expressão maciça”, potenciada pelas mudanças nas economias e nos mercados de trabalho, explica a investigadora no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa, que, em conjunto com Luísa Oliveira, também socióloga e investigadora na mesma instituição, escreve sobre o assédio moral no livro “Portugal Invisível” (ed. Mundos Sociais), recentemente lançado.

O assédio moral engloba “situações várias”, que não são recentes nas sociedades contemporâneas, mas “que se têm vindo a agravar”, em que se verifica uma “infernização do quotidiano das pessoas”, no local de trabalho, por parte dos superiores hierárquicos ou dos próprios colegas, resume Luísa Veloso, em declarações à agência Lusa.

As pessoas passam a ter de “desempenhar funções para as quais não estão preparadas” ou a “trabalhar muito mais horas do que é suposto” ou a serem forçadas a assumir mais responsabilidades ou exigências, enumera.

Casos destes, alerta, estão por todo o lado, nas empresas privadas ou nos organismos do Estado e incidem quer sobre “quem fica e permanece no ativo, a trabalhar”, quer sobre os trabalhadores que os patrões querem dispensar recorrendo a um “processo silencioso” que passe por cima dos direitos sociais adquiridos.

Todas são “situações muito perturbadoras”, que configuram “um atentado à dignidade humana”, e “muito prejudiciais à própria saúde das pessoas”, quer mental quer física, pois resultam, frequentemente, noutras doenças, refere Luísa Veloso. “O valor económico deste problema -- escrevem as investigadoras no artigo -- não é despiciendo se atendermos aos gastos das empresas e do Estado, tendo em conta que se trata de um problema de saúde pública”, o que “impõe uma reflexão pública”.

Pode chegar-se ao ponto de “a pessoa chegar para trabalhar e não ter nada na sua secretária”, exemplifica Luísa Veloso, recordando que das três vítimas de assédio moral entrevistadas para o trabalho de investigação realizado uma “até chorou”. “É um poço sem fundo”, resume.

Uma psiquiatra e um advogado colaboraram no estudo retratando todos os casos “absolutamente dramáticos” que lhes chegam às mãos. Foi difícil convencer as vítimas a partilharem as suas experiências, porque “as pessoas não denunciam, há uma vergonha social muito grande” e, por outro lado, “nem sempre têm consciência do estado em que se encontram”, justifica Luísa Veloso.

Faltam estatísticas e muitas vezes estes casos são assinalados como depressão, por exemplo, não se estabelecendo as causas sociais do problema.

O assédio moral afeta tanto homens como mulheres e não escolhe idades. “As pessoas na faixa dos 45-50 anos são muito objeto de chantagem para saírem”, enquanto os jovens fazem “uma aceitação tácita de determinadas condições”: “trabalhar muitas horas por dia” ou ser “insultado ou humilhado publicamente por parte do superior hierárquico em frente aos colegas”, descreve Luísa Veloso.

“O mercado de trabalho mudou muito” e hoje existe “muita insegurança” e “muitos jovens, e mesmo pessoas mais velhas, que já têm compromissos materiais -- endividamentos com a banca -- e que têm as suas famílias, aceitam situações que muitos de nós nem sequer sonham que existem”.
| Público - 20.03.2011

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sabedoria das multidões ajuda a pensar melhor

Há um antigo ditado popular que diz que duas cabeças pensam melhor do que uma. Esse ditado recebeu confirmação empírica na Psicologia Social dos anos 20, quando uma série de estudos mostrou que os grupos eram mais acurados do que os seus membros de forma individual. Em uma, das primeiras demonstrações do fenómeno, por exemplo, Hazel Knight, da Columbia University, pediu para que os seus alunos apresentassem uma estimativa da temperatura na sala de aula. Quando uma média das estimativas era calculada, a hipótese do grupo era mais próxima do correcto do que a estimativa de um membro isolado.

Os primeiros autores acharam o facto surpreendente, e atribuíram-no a alguma propriedade misteriosa do grupo. Finalmente, então, o resultado foi reconhecido como um produto da estatística: usar uma grande amostragem de estimativas imperfeitas tende a cancelar erros extremos, convergindo para o resultado correcto. Pesquisas subsequentes na área de planeamentos estratégicos demonstraram que os cálculos feitos por uma média são mais “poderosos” quando comparados aos mais sofisticados métodos de combinação estatística. A capacidade e a simplicidade do cálculo de média foram resumidas no best seller de James Surowiecki, “The Wisdom of Crowds” (A Sabedoria das Mulditões, em português), de 2004.

Em um fascinante artigo da Psychological Science, Stefan Herzog e Ralph Hertwig fizeram cair por terra o velho ditado. Segundo eles, uma cabeça pode ser tão boa quanto duas. Herzog and Hertwig pediram aos participantes de sua pesquisa para que estimassem valores quantitativos que não sabiam ao certo – sobretudo datas históricas. Os autores, então, solicitaram que os participantes pensassem numa segunda estimativa. Poderia essa “multidão na mente” ajudar na melhoria das hipóteses? A resposta é sim, e a literatura da sabedoria das multidões ajuda-nos a entender o porquê.

Multidões, obviamente, nem sempre são sábias. No entanto, é mais provável que elas ajam de forma sábia se dois princípios forem seguidos. O primeiro deles é que os grupos devam ser compostos por pessoas com conhecimentos relevantes sobre o assunto. O segundo princípio é que o grupo deva oferecer diversas perspectivas e diferentes conhecimentos relacionados com o tema. Dar valor à diversidade tem-se tornado um facto inquestionável, mas é interessante considerar exactamente como ela afecta a tomada de decisões. As pessoas cometem erros, e isso é inevitável. A questão, então, passa a ser se as pessoas cometem erros similares (nesse caso, a substituição dos indivíduos traria poucos benefícios ao grupo) ou se as pessoas cometem erros distintos (nesse caso, os seus erros seriam anulados).

As diferenças nas perspectivas são criadas tanto pelos membros do grupo (quando as pessoas têm diferentes experiências, formação e modelos de julgamento) quanto pelos processos (quando as ideias são formadas e expressas de forma independente das ideias dos demais membros). É interessante observar que os benefícios da diversidade são tão fortes que, apesar de participantes com habilidades extremamente diferentes serem escolhidos para um mesmo grupo, ainda assim são constatados ganhos.

Herzog e Hertwig usaram os princípios da perspectiva da “sabedoria das multidões” para possibilitar que uma cabeça se tornasse quase tão produtiva quanto duas. Após os participantes pensarem nas suas primeiras hipóteses sobre as datas de eventos históricos, os autores solicitaram, então, uma segunda estimativa, aplicando um dos seguintes métodos. No primeiro, os participantes apenas apresentaram uma segunda estimativa, o que contribuiu muito pouco para o conhecimento e a diversidade.

Já no segundo, foram fornecidas aos participantes instruções detalhadas sobre como deveriam apresentar a estimativa subsequente: “Primeiro: façam de conta que sua primeira estimativa está incorrecta. Segundo: pense sobre algumas razões pelas quais o erro pode ter ocorrido - quais suposições e considerações podem ter sido erradas? Terceiro: o que as novas considerações sugerem? Quarto: baseado nessa nova perspectiva faça uma segunda estimativa”. Quando os participantes usaram o método mais “evoluído”, a média foi significativamente mais acurada do que a apresentada na primeira. A “multidão envoluída” atingiu aproximadamente metade da exactidão a que se teria chegado se a data tivesse sido estimada por uma segunda pessoa.

Herzog e Hertwig nomearam o processo de maior envolvimento de “bootstrapping dialéctico”. Você pode superar-se utilizando apenas o seu bootstrap baseado no provérbio de que duas cabeças pensam melhor do que uma - supondo que você esteja errado, estipulando uma segunda estimativa apoiada na busca por evidências, e então calculando a média das duas estimativas. É interessante notar que, de acordo com os estudos de Herzog e Hertwig, o bootstrapping não levou a segundas estimativas mais corretas que as primeiras. O benefício do bootstrapping dialéctico somente foi percebido quando a primeira e a segunda estimativas eram analisadas juntas. Se comparado ao simples estabelecimento de um segundo julgamento, o bootstrapping dialéctico criou diversidade – ele leva a estimativas que, provavelmente, oferecem erros compensatórios.

Embora tenhamos a habilidade de gerar múltiplas perspectivas, normalmente apegamo-nos a apenas uma das formas de se abordar o problema – com as suas limitadas possibilidades de acerto e erro. Temos a tendência de parar na primeira etapa. O bootstrapping dialéctico possibilita a busca de outras perspectivas que já existem na nossa mente. Um princípio chave do estudo de Herzog e Hertwig é que cada um de nós carrega a nossa própria “multidão”, o nosso próprio grupo de conselheiros. No entanto, usufruímos da sua sabedoria apenas se conduzirmos uma “reunião” produtiva, que assegure a ocorrência da diversidade na mesa e que não se limite à verbalização de diferentes perspectivas, mas as incorpore, efectivamente, na decisão final. Herzog e Hertwig criaram um processo para a realização de uma boa reunião de conselheiros – na privacidade de sua própria mente.
|Fonte: Gazeta de Alagoas

Crianças ricas. São 5,7 centímetros mais altas


Investigadores avaliaram a evolução da estatura dos alunos do Colégio Militar e da Casa Pia no último século. Resultados mostram desigualdade

Sim, as classes sociais podem medir-se aos palmos. A opinião é dos antropólogos que decidiram avaliar as diferenças na estatura dos alunos do Colégio Militar e da Casa Pia, duas instituições de Lisboa. As diferenças encontradas permitem tirar lições socioeconómicas, garantem os autores do trabalho nascido na Universidade de Coimbra, e que agora é publicado na revista "Economics and Human Biology". Os resultados mostram que as diferenças físicas entre os rapazes das duas instituições - a primeira rotulada como escola de famílias mais favorecidas e a segunda de crianças pobres - têm vindo a atenuar-se, embora continuem a ser significativas. Ao longo do último século os alunos do Colégio Militar somaram em média mais 6,4 centímetros de altura e mais 4,8 quilos do que os colegas da Casa Pia.

O trabalho analisou mais de 4000 medidas recolhidas pelas duas instituições desde o início do século passado. A matéria-prima permitiu uma avaliação da evolução das estaturas por idades, entre os dez e 16 anos. Demonstrou-se que, na altura média, a diferença entre os dois grupos caiu de 7,0 centímetros, em 1910, para 5,7 centímetros em 2000 - uma melhoria significativa. No peso houve apenas uma ligeira atenuação, de 4,9 quilos de diferença para 4,6 quilos. No índice de massa corporal (IMC), os alunos do Colégio Militar têm valores médios apenas 1,9% superiores. Conclui-se ainda que, no último século, as alturas dos rapazes dos dois estabelecimentos aumentaram em média 13,6 centímetros e o peso 13,5 quilos - valores que espelham a melhoria das condições de vida no país, sobretudo a partir da década de 1960, explicam os autores.

Ainda assim, os valores da desigualdade surpreenderam: "Sabemos que as crianças socialmente desfavorecidas tendem a ser mais baixas e menos robustas - o que reflecte condições de vida empobrecidas - mas conseguimos perceber qual era a diferença entre estes dois grupos no início do século, e qual é a diferença hoje", diz Hugo Cardoso. O investigador em antropologia biológica, e um dos autores do trabalho, tem utilizado a avaliação antropométrica como um indicador para o desenvolvimento da sociedade. "Os historiadores de economia analisam a evolução socioeconómica com indicadores relacionados com a moeda ou com o PIB, que na prática acabam por ser muito pouco específicos sobre a forma como sociedade funciona. Os dados sobre a estatura dão-nos uma imagem bastante real do impacto das disparidades", defende.

A base tem sido o arquivo do Colégio Militar - por ter sido fundado em 1803 e ter dados sistematizados sobre a estatura dos alunos. Desta vez, uma colaboração com uma professora de Educação Física da Casa Pia de Lisboa permitiu uma análise comparativa entre a população de um colégio associado à elite e a de uma instituição fundada depois do terramoto de 1755 para apoiar jovens desfavorecidos, com princípios de protecção que se foram mantendo até hoje. O estudo confirmou uma "lacuna alarmante entre a saúde dos ricos e a dos pobres, que as recentes reformas sociais e económicas não conseguiram reduzir de forma significativa", escrevem os autores no final do artigo. Os indicadores são variados: descobriu-se, por exemplo, que entre 1910 e 2000, a altura média de uma criança com 13 anos no Colégio Militar aumentou 15,4%, de 1,46 metros para 1,61 metros. Na Casa Pia de Lisboa, nesta mesma idade, o aumento foi de 11,8%, de 1,39 metros para 1,55 metros. A taxa de crescimento virtual por década foi calculada em 1,4 cm/1,5 cm e 1,5 kg, embora as medidas dos alunos da Casa Pia sejam sempre menos robustas. "Houve uma diminuição da diferença entre estaturas, mas é tão pequena que se torna curioso perceber como é que durante 100 anos não houve oportunidade para as desigualdades sociais diminuírem", afirma o investigador.

Duplo fardo Para Miguel Rego, nutricionista e colaborador da Direcção-Geral da Saúde, perante estes dados, é importante não esquecer a questão do "duplo fardo" das populações socialmente mais desfavorecidas. "Temos a criança com menos peso, com uma nutrição pior, mas cada vez mais surge o problema da obesidade, com vários estudos que apontam para uma prevalência mais elevada nestes grupos", sublinha. "Ao ver esta clara diferença entre grupos, que ainda que tenha vindo a diminuir mantém-se, devemos pensar claramente onde actuar primeiro", sugere. O especialista acredita que a estratégia para combater esta disparidade, resultado da nutrição e dos cuidados de saúde, passará pela reorganização em curso dos cuidados primários. "Temos de abandonar a visão hospitalocêntrica, e fazer valer estes serviços não só como um sítio onde se procura saúde quando se está doente, mas como um parceiro activo na comunidade, nas escolas e no trabalho para promover hábitos alimentares e uma população com mais acesso à informação e capacidade de a interpretar."
|Fonte: Jornal "I"

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O limite do ser humano é ter 150 amigos?


Um estudo da Universidade de Oxford divulgado recentemente e em destaque no The Times nesta segunda-feira levantou uma possível importância que o número de Dunbar tem na relação social entre humanos. Segundo a pesquisa, o cérebro humano é capaz de administrar em redes sociais, no máximo, 150 amigos.

Robin Dunbar, antropólogo da instituição e autor da pesquisa, conseguiu pela primeira vez comprovar no mundo on-line a teoria que defendia na década de 90. Na época, o cientista concluiu a partir de observações de vários grupos que a capacidade de manter círculos sociais não passava do número 150, independente do grau de sociabilidade de cada pessoa.

Na web, a teoria já foi questionada. Em Fevereiro, o sociólogo Cameron Marlow descobriu que um internauta comum consegue estabelecer uma relação estável com o próximo com no máximo 120 contactos em perfis no Facebook. Russerd Bernard, da Universidade da Flórida, concluiu que, nos Estados Unidos, os laços de amizade de uma pessoa podem chegar a 290.

Essas limitações existem devido a capacidade do neocórtex cerebral, que não se desenvolveu durante a evolução do homem. Em pouco tempo, o registo foi tão valorizado na Internet que já existiram redes sociais que o adoptavam para definir critérios de ingresso nas plataformas participativas.

A rede social aSmallWorld, considerada como “Orkut dos ricos”, usou este discurso para defender seus princípios de uso e, claro, alcançar valorização e alarde em torno de seu serviço.

A construção do mito de que as novas tecnologias poderiam superar tal limitação não é o único facto que mais chama a atenção. O estudo corrobora a premissa de que o internauta, hoje, reforça mais laços construídos de forma offline (cotidiano) do que propriamente criar novas amizades virtuais.

|Fonte: Revista Veja

O Menino Selvagem

  O garoto selvagem - legendado pt br no Vimeo