domingo, 14 de março de 2010

Justiça não quer criança como vilã em "Viver a Vida"


A ideia teve tanto de inovadora como de polémica. Ao colocar uma criança no papel de vilã, Manuel Carlos, autor da novela Viver a Vida (transmitida na SIC) acabou por colocar o seu trabalho no meio de uma alargada discussão pública, que terminou na própria Justiça.

Apesar de, em Outubro, a Procuradoria da Justiça brasileira ter pedido que a Globo redefinisse o papel de Rafaela (papel desempenhado pela actriz Karla Castanho), mostrando preocupação quer pela jovem actriz, quer pelo modelo negativo que a personagem constituía para outros miúdos e adolescentes, nada foi feito.

Resultado: esta semana o tribunal voltou a insistir na necessidade do papel de Rafaela ser reformulado, considerando que "nem todas as manifestações são passíveis de serem exercidas por crianças e adolescentes pela forma como podem afectar o seu desenvolvimento".

Caso, mesmo assim, a Globo insista em não introduzir alterações no rumo da personagem, a justiça admite poder intervir coom acções judiciais que, no limite, podem impedir Karla Castanho de continuar no elenco da novela.
|Expresso

Quando a mãe falta


Luís Francisco ficou viúvo um dia depois de ter sido pai de Carolina, em Outubro de 2006. A sua mulher, Susana Amorim, sofreu de síndroma de Hellp após o parto e acabou por falecer na sequência de um AVC. No primeiro ano, Luís diz que "andava a pairar". Não se recorda de quase nada. Tem flashes apenas. Uma das imagens mais fortes que lhe vem à memória é a da filha com dias de vida, ao seu colo, à procura do peito materno. "Tinha de acordá-la a meio da noite para lhe dar o biberão e via a cabeça dela de um lado para o outro à procura da mama... Nessas alturas, sei que não conseguia segurar as lágrimas."

Como se aquela dor não bastasse e a responsabilidade de ser pai sozinho não fosse suficiente, o destino pregou-lhe nova partida. Três meses depois de perder Susana, Luís viu a outra mulher da sua vida partir. Também assim, de repente, sem mais. "No dia 25 de Dezembro, a minha mãe sentiu-se mal, foi para o hospital, e a 7 de Janeiro faleceu. Apareceu-lhe um cancro, que era desconhecido até aí, e teve uma embolia. Então fiquei mesmo sozinho. Já tinha perdido o meu pai há uns anos. Valeu-me a minha irmã, que se desdobrou em baixas médicas e férias para me ajudar, o resto da família e os amigos, que foram incansáveis. Andaram comigo ao colo... Acho que ainda hoje andam!"

Luís tem 35 anos, Carolina 3. Vivem ambos para os lados da Venda do Pinheiro, onde já têm uma rotina instalada. De manhã, Luís leva a filha ao infantário, a poucos quilómetros de casa, e segue para o trabalho de produtor gráfico numa empresa das redondezas. Vai buscá-la às seis e meia, dá-lhe banho, prepara o jantar - "tenho sempre sopa feita por mim ou por alguém da família" -, e depois vem o período preferido de ambos, o da brincadeira. "A Carolina gosta de brincar com bebés, Legos, faz desenhos e pinturas", explica. Às 21 é hora de ir para a cama. "Se for mesmo às nove ainda há história, se já for mais tarde não há história", conta.

Sentimento de revolta

Quem o ouve pode pensar que conseguiu superar tudo com desembaraço, mas na realidade não lhe é fácil falar do que aconteceu, embora nunca saia da pose de bonacheirão bem-disposto. Confessa que, quando recebeu a notícia da morte da mulher, se sentiu "vazio". "Parece que não estamos nem neste mundo nem no outro. Não andamos, deslizamos", descreve. Seguiu-se "uma revolta muito grande e uma sensação de injustiça". Afinal, Carolina foi uma filha desejada e programada depois de quase 15 anos de vida a dois. Susana foi a primeira e única namorada. Conheceram-se tinha ele 17 anos. Na gravidez, tudo correu "normalmente", desde as consultas médicas até ao parto na Maternidade Alfredo da Costa (MAC). Luís assistiu ao nascimento da filha, que foi "relativamente rápido", segundo ele, demorando "talvez meia hora, 45 minutos". Nada fazia prever aquele desfecho algumas horas depois.

A síndroma de Hellp é rara e pode levar a insuficiência cardíaca e pulmonar, hemorragia interna, acidente vascular cerebral (AVC) e outras complicações graves na mãe. Tanto pode ocorrer durante a gravidez como, no caso de Susana, após o parto. Os sintomas incluem fadiga, mal-estar generalizado, vómitos, dor de cabeça, retenção de líquidos e algumas vezes convulsões, mas a doença não é fácil de diagnosticar.

Luís considera que houve negligência, uma vez que "ela queixou-se de dores de cabeça e mal-estar a seguir ao parto" e, na sua opinião, "não lhe deram a devida atenção". O caso chegou à comunicação social, porque Susana esteve quase uma hora à espera de ser transferida da MAC para São José já depois de sofrer convulsões e o AVC. Tudo porque o INEM e a MAC não se entendiam sobre quem devia fazer o transporte da doente. "Não sei se aquele tempo de espera foi fatal ou se quando teve o AVC já a hemorragia a tinha afectado muito. Cheguei a meter o caso em tribunal, mas foi arquivado. Dizem que nestes casos não há nada a fazer. Nem quero mexer mais nisso", desabafa, para concluir: "A Susana não merecia aquela sorte."

Durante um ano, o jovem pai ficou em casa da mãe, em Odivelas. Gozou cinco meses de licença de maternidade, começou a trabalhar e só depois regressou ao apartamento onde vivia com a mulher. Não mudou praticamente nada, nem escondeu as fotos de Susana. Carolina sabe e diz que "a mãe Susana está no céu".

Pai a tempo inteiro

Nos primeiros tempos, encarar a vida sem a mulher e a mãe foi "bem mais difícil do que cuidar da Carolina". Confessa que pensou no suicídio "mais do que uma vez", mas a filha e o apoio dos que o rodeavam foram mais fortes. A irmã, Ana Cristina (41 anos), incutiu-lhe desde o início que os bebés "não se partem, precisam de apanhar sol, frio, etc., e têm de se adaptar ao mundo cá fora". Talvez por isso, ou por instinto, nunca sentiu grandes dificuldades em mudar as fraldas, dar banho ou vestir a filha. "Agora, sim, é mais difícil, porque ela já foge", conta a rir, confessando que neste patamar o mais complicado é "conjugar roupas". "A cena dos penteados e do ganchinho... Sou homem, para essas coisas não tenho mesmo jeito!"

E se dar-lhe banho, alimentá-la ou vesti-la nunca foi problema, já educá-la "sem o outro lado" começa a revelar-se uma tarefa hercúlea. É que, neste caso, a mesma pessoa que ralha é a que vai passar a mão a seguir. "Quando o meu pai me punha de castigo, a minha mãe vinha ter comigo e explicava-me porque é que estava de castigo. Eu tenho de fazer os dois papéis. E gerir essa situação às vezes é complicado", até porque, segundo diz, a filha tem uma "personalidade forte" e um "mas eu quero" sempre na ponta da língua. "E eu não aguento ouvi-la chorar mais do que dez minutos."

As preocupações de pai e de homem não se ficam por aqui. Luís tem noção de que "há coisas" de que não vai conseguir falar com a Carolina "como uma mulher, uma mãe". Como, por exemplo, sobre "coisas íntimas, dos namoros", diz a rir, concluindo: "Por força das circunstâncias, nem eu voltei a ser o mesmo nem a Carolina será educada nas circunstâncias normais, entre aspas." No entanto, diz que tem sorte, porque a filha não é uma criança difícil, "come bem, até quando faz birra". É doce e cheia de energia, embora revele "um feitio impetuoso e independente", que acaba por caracterizar assim: "É uma Susana em ponto pequeno."

Vida própria

Após a morte de Susana, Luís passou a olhar para "todas as mulheres" como se fossem "potenciais mães da Carolina", confessa numa gargalhada. Com o total apoio da família, retomou a sua vida pessoal e social. Fê-lo até como "autoterapia", arranjando tempo para sair com amigos, aos fins-de-semana. "Felizmente, tenho muita gente próxima que não se importa de ficar com a Carolina quando preciso." Há um ano, começou a namorar com Lurdes, com quem pensa vir a ter filhos. E, apesar de a filha ter aceite "muito bem" a namorada do pai, Lurdes só passou a viver com Luís e Carolina na segunda-feira passada.

Luís diz que sente que tem uma relação "diferente e especial" com a filha e explica que passou a encarar a morte de outra forma, como algo que "pode acontecer a qualquer momento". Mas, se "a vontade de viver é agora maior", o medo de morrer também o é. "Acho que ainda hoje estou para apanhar com a chapada da morte da Susana e da minha mãe. Tenho um medo constante de me ir abaixo", confessa.

Publicado na Revista Única de 6 de Março de 2010

A emoção de Beatriz Batarda e a razão de Elvira Fortunato. Ou será ao contrário?





















Beatriz Batarda

Nunca tinham ouvido falar uma da outra. Mas nenhuma hesitou em aceitar o convite para esta conversa proposta pelo Expresso a propósito dos 100 anos do Dia da Mulher. Nos temas a debater a liberdade seria total. Só depois Beatriz Batarda, 35 anos, e Elvira Fortunato, 45, perguntaram quem era a interlocutora. Quando se sentaram frente a frente, nem sequer esperaram que o gravador fosse ligado. E quando a jornalista se apercebeu já a cientista explicava à actriz o que era o seu trabalho de investigadora.

Elvira Fortunato - Trabalho na área dos materiais. Gosto de cozinhar e isto é quase a mesma coisa: em vez de estar na cozinha a fazer um bolo, fazemos novos materiais para usar em electrónica. Trabalho com transístores, componentes que não vemos mas que nos rodeiam - qualquer equipamento de electrónica (telemóveis, câmaras, televisões...) tem lá dentro um computador com transístores e circuitos integrados. O material usado para fazer estes transístores é um semicondutor chamado silício. O que mudámos? Substituímos o silício por outros materiais.

Beatriz Batarda - Porque está esgotado?

E.F. - Até existe em muita quantidade, mas o seu processamento é muito oneroso, tem que se utilizar altas temperaturas e a tecnologia é poluente... Os materiais que desenvolvemos têm a mesma funcionalidade e são óxidos transparentes... Alguma vez leu o rótulo dos protectores solares?

B.B. - Nunca.

E.F. - Na próxima vez que for à praia leia e verá que de entre os vários constituintes desses cremes há um que é o ZnO, o óxido de zinco, que tem propriedades cicatrizantes e que nós usamos para fazer transístores - é muito mais barato do que o silício, a tecnologia é toda verde e tem ainda a grande vantagem de ser transparente. E assim conseguimos fazer a chamada electrónica transparente. O que permite ter, por exemplo, o GPS no pára-brisas do automóvel embebido no vidro.

B.B. - Como nos filmes.

E.F. - Sim. No filme "Relatório Minoritário" vê-se Tom Cruise a deslocar a informação em placas de vidro... A história é engraçada porque o Spielberg ouviu 20 cientistas sobre como iriam ser no futuro os sistemas de comunicação. Também se vê isso na promoção a um noticiário da SIC Notícias.

A conversa prolonga-se com a curiosidade de Beatriz sobre o trabalho de investigação. Finalmente, a actriz apresenta-se e fala também da sua profissão.

Elvira Fortunato
Elvira Fortunato

B.B. - É difícil apresentar-me assim, e ainda por cima perante uma cientista que tem uma função no desenvolvimento da nossa sociedade e da cultura muito mais relevante do que o palhaço encomendado. Sou actriz e quis ser muitas outras coisas. Sou neta de cientistas e de artistas. Estudei design, mas não se concretizou porque muito cedo tive uma experiência no cinema, com 12 anos, e outra com 17, um pequeno papel com Manoel de Oliveira. Depois comecei a fazer teatro na Cornucópia com o Luís Miguel Cintra. Levaram-me mais a sério do que eu própria e a coisa foi crescendo. Acabei por ter de fazer uma escolha, aliás, tenho a teoria de que tudo são escolhas. Trabalhei em Portugal durante quatro anos em teatro e em cinema. Depois, fui para Londres fazer um curso de drama e fiquei cerca de sete anos. A vida familiar deu, entretanto, voltas, vieram as crianças, e acabei por me instalar outra vez em Portugal. Também porque nesta coisa do teatro a língua é uma limitação muito grande. Ou seja: o teatro que faço é da palavra, mais do que físico ou circense. Por muito que eu me esforçasse por dominar o inglês nunca é a nossa língua. E o que um actor trabalha e procura, além de entreter, é ser transmissor ou espelho de alguma reflexão sobre a condição humana. E, portanto, a língua, era...

E.F. - ...um obstáculo.

B.B. - Sim. Aqui foi possível trabalhar textos e personagens mais complexas do que no estrangeiro, onde me especializei a fazer imigrantes de todas as nacionalidades. No meu país, só tenho a limitação do corpo, da voz, da cara que tenho, e de ser mulher. Se quisermos voltar ao tempo de Platão e Sócrates, podemos falar de sermos veículos da energia das musas, o que deve ser possível provar cientificamente, embora goste de olhar para essa função de veículo de uma forma mais espiritual - a magia é muito importante, haver capacidade lúdica, da ilusão e do sonho... a imaginação é infindável e tem um poder impossível de medir.

E.F. - Costumo dizer que o céu é o meu limite.

B.B. - Pois... a imaginação é essencial nas nossas duas profissões. Um cientista que não tem imaginação e não é criativo, não pode ter ideias contracorrente.

E.F. - É verdade: muita transpiração mas também muita imaginação.

B.B. - Einstein funciona para a ciência e para a imaginação.

E.F. - Acabo o meu doutoramento com uma frase de Einstein, de que alguns professores não gostam: a imaginação é mais importante do que o conhecimento.

B.B. - O conhecimento na área do espectáculo pode ser castrador, limitar a criatividade e bloquear esta disponibilidade para ir além do que são as regras em que vivemos.

E.F. - O conhecimento, a meu ver, é perfeitamente descompartimentado. Não gosto muito de regras no meu trabalho. Estava a ouvi-la e a pensar onde é que podemos ter algo em comum. Temos profissões completamente diferentes mas com uma coisa idêntica: não temos um trabalho de rotina. Gosto muito de fazer coisas sempre diferentes. Não sei se gosta disso...

B.B. - Mal de mim se não gostasse. É muito mais estimulante criativamente. O que também temos em comum é que sabemos que sem arriscar e sem experimentar não se descobre nada. A investigação não é só estudar e acumular conhecimento, imagino que é também arriscar e confrontar-se com a possibilidade do erro e do fracasso...

E.F. - Exactamente.

B.B. - Há várias formas de se ser actor, como há várias formas de se ser cientista. A profissão de cientista é reconhecida, a de actor não - desde logo, por não ser preciso ter um curso para a exercer, com todas as consequências que daí advêm. Cada actor tem uma relação com o profissional à sua medida: não me relaciono com a profissão como uma prestadora de serviços, mas de uma forma muito mais apaixonada e com um enorme respeito. E gosto de pensar que a alma existe - perante uma cientista são afirmações muito difíceis de fazer -, mas gosto de acreditar que há uma alma, não no sentido religioso mas de identidade. E que utilizando aquilo que será a minha identidade mais íntima eu posso não só reflectir enquanto artista sobre a minha relação com o mundo e com os outros, mas também sobre os outros. Para mim, cada peça é um projecto, uma etapa, uma descoberta, em que eu me ponho em questão e cresço enquanto artista. Com algum receio de soar pretensiosa, acho que há actores que podem ser artistas de alguma forma (é muito perigoso dizer isto). O caminho que escolhi - não sou uma actriz facilmente reconhecível porque evito fazer televisão -, é financeiramente mais arriscado. Mas não estou numa posição em que me possa queixar porque tenho tido um percurso de luxo, de privilégio. Como eu, há milhares de actores que não fazem televisão e que não têm tido o mesmo reconhecimento pela imprensa. E se a imprensa não imprime é como se não existíssemos.Ciência e Arte correspondem a uma divisão razão/emoção? A cientista Elvira representa o conhecimento, a razão, e a actriz Beatriz a sensibilidade, a emoção?

E.F. - Não se pode colocar uma barreira emoção/razão. Deste lado há muita emoção.

B.B. - E deste lado há muita razão!

E.F. - Há a razão científica, mas também a emoção de cada pessoa. Na investigação temos uma emoção enorme relativamente aos resultados. Quando fizemos o primeiro transístor em papel foi um delírio no laboratório. Em qualquer profissão há razão e emoção.

B.B. - Um actor que viva só de emoção é incompleto. Não se pode contar uma história nem partilhar o que será um acontecimento na vida de uma personagem se não utilizarmos a razão em confronto com a emoção. Ou seja: ninguém vai para palco com a ambição de chorar. Um actor estabelece um objectivo e um obstáculo para aquela personagem; e age para atingir aquele objectivo, mas quando é confrontado com o obstáculo, há uma consequência, que é a emoção. O instinto é importante, e a inteligência de como se faz esta gestão também faz muita diferença. Se não a emoção pode tornar-se um ruído.

E.F. - Tenho um trabalho muito atribulado e gosto muito de trabalhar em stresse, porque é quando conseguimos explorar ao máximo as nossas capacidades intelectuais. Não consigo provar isto, mas sinto que se conseguir ocupar a minha cabeça com mais coisas também consigo chegar mais longe, porque ponho zonas do meu cérebro a trabalhar que se calhar estariam a descansar. E também tem de existir algum instinto científico. Teoricamente, se eu dissesse a um professor "vou fazer um transístor de papel" a primeira reacção seria "é impossível, não funciona". No entanto, funciona. É o tal risco, a tal curiosidade...

B.B. - E não ter medo de falhar, não é?

E.F. - Não tenho que ter medo de falhar. Mesmo que digam a um cientista "não funciona" ele tem que ter a certeza que não funciona... Cada projecto é uma pecinha e todos os projectos vão contribuindo para o meu projecto de vida em termos profissionais.

B.B. - O que acontece quando se atinge o reconhecimento científico? Isso muda a sua relação com o fracasso? É uma pergunta que fazem muito aos actores.

E.F. - Lido bem com o fracasso, não me derruba. Dá-me mais força, para tentar que o próximo projecto não corra mal. Sou muito optimista, tento ver sempre o lado positivo.

B.B. - Também acredito que quando as coisas correm mal é porque há qualquer coisa para aprender. Através do erro percebo de uma forma mais concreta uma personagem, uma situação ou um pensamento do autor.

E.F. - Os nossos falhanços são diferentes.

B.B. - O seu custa mais dinheiro do que o meu.

E.F. - Se eu falhar no laboratório, só eu e a minha equipa é que sabemos. Se um espectáculo não lhe correr bem é diferente porque tem o público a assistir.

B.B. - É uma morte simbólica.

E.F. - No meu caso, não é presencial e se calhar, por isso, posso falhar mais vezes do que a Beatriz. O meu falhanço não é tão arriscado como o seu porque se arriscar muitas vezes em palco acaba por ser negativo.

B.B. - Sim. Mas o meu falhanço só põe em causa o meu próprio ego. O seu põe em causa todo um projecto e uma equipa.

E.F. - Sim. O seu trabalho é mais individual.

O que há no vosso trabalho de marcadamente feminino? Pode-se falar de uma forma feminina de fazer ciência?

E.F. - Não. Há profissões em que o género pode ter influência. Mas no meu caso não há qualquer diferença entre homem e mulher.

B.B. - No meu há uma diferença que é a atribuição dos papéis, devido ao corpo, à matéria... Posso até brincar com alterações de padrão de respiração inspirando-me em animais e construir assim uma personagem. E isso tem influência na forma como articulo o pensamento e o meu corpo se mexe. Mas é sempre o mesmo corpo e, principalmente, é a mesma cabeça e a mesma alma. E a cada peça já não tenho só a herança genética ou a cultural, mas também a herança de outras vidas que não foram as minhas. Isso vai lá ficando. Camadas por camadas. Acabamos por ser umas entidades muito próprias e, sim, às vezes, no limiar da loucura, porque isto não é um caminho normal de um ser humano. Não é um caminho equilibrado de uma só vida, é uma acumulação de muitas histórias e passados, porque para cada personagem nós reinventamos um passado. Por um lado, isso protege-nos porque nos cria alguma distância, mas, por outro, vão ficando coisas... A imaginação é enorme, mas a memória também.Antes de iniciarmos esta conversa falou de um estudo que conclui que apesar de haver cada vez mais mulheres na carreira científica, poucas chegam aos lugares de topo.

E.F. - Isso ainda é uma realidade. No meu caso, não tenho problemas desses e desde 1998 que coordeno o CENIMAT (Centro de Investigação de Materiais da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa). As coisas aconteceram de uma forma perfeitamente democrática. Não me posso queixar de pelo facto de ser mulher isso me criar obstáculos. Sou uma privilegiada.

B.B. - As mulheres não trabalham fora há muitos anos, nem votam há muitos anos... Em Portugal, as mulheres começaram a estudar e a ser levadas a sério há pouco tempo... Mulheres artistas existem há poucas centenas de anos, enquanto homens artistas é uma actividade milenar... O que estamos a avaliar é uma coisa dos últimos 100 anos, o que não é nada. As coisas têm o seu tempo. Apesar de se sentir ainda em Portugal alguma misogenia (e na minha área também) e alguma dificuldade de aceitação da mente criativa feminina, até é um país sortudo e evoluído.

E.F. - Em países mais desenvolvidos e mais ricos que o nosso as mulheres com determinadas habilitações, até doutoramentos, preferem uma vida familiar. Não tenho que concordar ou deixar de concordar, mas em Portugal hoje em dia a mulher é forçada a trabalhar devido às condições económicas...

B.B. - A mulher sempre teve que trabalhar.

E.F. - Um trabalho que não era reconhecido.

B.B. - Se tivermos um olhar mundial e não só europeu, a questão que se põe é que o trabalho que a Dra. Elvira e eu temos é um luxo.

E.F. - Ah, pois é...

B.B. - Difícil é ser mulher em África ou no Haiti. Perante o que vivemos actualmente, o nosso olhar tem que ser menos egocêntrico. Através das comunicações, o mundo que era imenso tornou-se muito pequeno. Quando digo que somos sortudos é porque estou a olhar para o que se passa no resto do mundo. Cá há muito que lutar? Sim. A mulher portuguesa é muito valente porque quer estar a um nível mais competitivo, quer ser reconhecida como uma cabeça pensante, como uma mente criadora e inteligente, mas também quer ser bonita e ter o corpo todo no sítio, e também quer ter filhos, e um casamento estável, e ser uma boa amante e dona de casa...

E.F. - É complicado!

B.B. - Enfim, quer tudo. Porque temos esse direito. Isso é duro e dá muito trabalho, mas não é impossível e toda a gente luta por isso. Para mim, seria mais duro ser uma mulher num país subdesenvolvido, onde seria obrigada a condicionar o meu ser a uma única função, como ser mãe ou dona de casa.

Faz sentido haver um Dia da Mulher, uma discriminação positiva?

B.B. - Não faz sentido haver só um Dia da Mulher. Se há, deveria haver também um Dia do Homem. Assim, é também discriminação.

E.F. - Concordo. Não sou feminista.

B.B. - Numa sociedade em que começa a haver uma aceitação sobre as escolhas sexuais de cada um, o Dia da Mulher é redutor. E foi escolhido o Dia da Mulher porquê? Porque é mãe? Porque é o ente reprodutor? Podemos ser mulheres sem ter essa função.

E.F. - Entende-se a existência do Dia da Mulher porque assinala uma forma de luta face às discriminações que têm existido. Eu não sinto isso, a Beatriz também não, mas é uma realidade actual: há muitas zonas do mundo onde a mulher é escrava e não tem os mesmos direitos que o homem. Aí, o Dia da Mulher aparece para evidenciar um problema.

B.B. - A discriminação é uma prática recorrente que a civilização tem vindo a atenuar. Existe em Portugal como existe no mundo inteiro, mas a discriminação não é só relativamente à mulher, qualquer pretexto é bom para discriminar... Talvez até seja um impulso primário desta espécie: nós e os outros. Em Portugal, as pessoas são discriminadas ou porque são mulheres, ou porque são de outra cor, ou de outra opção sexual...

E.F. - Há casos em que a mulher sente isso tudo e mais o facto de ser mulher. Em Portugal há mulheres que engravidam e são despedidas.Afinal, concordam ou não com a existência de um Dia da Mulher?

E.F. - Concordo e não concordo. Concordo com o facto de existir o Dia da Mulher como forma de luta para mostrar à sociedade que ainda existe muita discriminação da mulher no mundo, e talvez um pouco em Portugal.

B.B. - Sou apologista da celebração da vida e do amor entre as pessoas. É nisso que acredito.

E.F. - Isso é uma utopia.

B.B. - Pois, mas se não temos uma utopia e um ideal não temos caminho, estamos só a picar o ponto. Acredito na aceitação da diferença e na igualdade, que são luxos da Europa Ocidental. Portanto, o Dia da Mulher depende do contexto em que estamos a falar. Por isso é que eu não reajo de forma tão militante como talvez me ficasse melhor. Sou mais apologista de um Dia Contra a Discriminação.Por muita paridade que exista no casal, na maioria dos casos há uma série de tarefas e responsabilidades que recaem mais sobre a mulher. Como é o vosso caso?

E.F. - Há partilha, até porque trabalhamos na mesma área e no mesmo sítio e temos os mesmos horários. Temos uma filha de 12 anos e há coisas que estão mais ligadas à mãe.

B.B. - Tenho duas filhas, de 3 e 5 anos. Não vale a pena estarmos a bater mais no ceguinho e a repetir as mesmas coisas ao longo dos séculos. Sim, é natural que assim seja, aquele ser é criado dentro da mulher, é ela que o transporta e o faz crescer durante nove meses e o próprio bebé durante os primeiros 2, 3 anos de vida acha que ainda está dentro da barriga da mãe. Isto é a biologia. E há limites para a civilização - destruir aquilo que é a biologia e que é um impulso primário de sobrevivência de uma espécie em nome de um enaltecimento da cabeça pensante seria um crime. Claro que culturalmente os pais da minha geração estão mais presentes do que os meus pais estiveram, há um desejo de partilha dessas tarefas, mas há coisas que são...

E.F. - Intrínsecas.

B.B. - ...para além daquilo que a razão permite.E como dividem as restantes tarefas domésticas? Já agora: tem influência o facto de serem casadas com homens da mesma área, a Beatriz com o músico Bernardo Sassetti e a Elvira com o cientista Rodrigo Martins?

B.B. - Quem lava a loiça? Nós somos burgueses, temos máquina de lavar.

E.F. - Não gosto de lavar loiça. Quando é preciso é o meu marido que lava.

B.B. - Tenho muitas ajudas. Somos dois artistas e não temos horários convencionais, trabalhamos muitas vezes à noite. Mas assim, é mais suave, menos violento - ele compreende e interessa-se pelo meu trabalho e partilhamos referências de filmes, livros, museus... Claro que o equilíbrio não é fácil, mas tentamos informar-nos e tornar o crescimento das crianças mais estável e saudável dentro daquilo que é uma vida um pouco instável. Tudo se faz. As pessoas adaptam-se. Somos umas famílias diferentes daquilo que será a maioria, mas não somos os únicos.

E.F. - Também não temos um horário das 9 às 5, às vezes não temos sequer horários. Tem sido importante termos os dois a mesma profissão porque permite uma maior compreensão do trabalho um do outro. Observo em colegas minhas que não tendo a mesma profissão que o marido às vezes é mais difícil explicarem porque é preciso ir à noite à faculdade ou trabalhar no fim-de-semana.

As duas horas de conversa voaram. Tanto ficou por dizer, mas muito, ainda assim, foi dito. Beatriz partiu a correr para os ensaios da peça "Olá e Adeusinho", de Athol Fugard, que no final deste mês marcará a sua estreia como encenadora. Elvira vai ainda fazer as fotografias individuais, mas o telemóvel toca cada vez com mais insistência - em parte porque na semana seguinte chegava o microscópio electrónico para observações à nanoescala, aquisição na qual aplicou parte dos 2,25 milhões de euros do prémio do European Research Council que em 2008 lhe granjeou a notoriedade nacional e internacional.

(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 06 de Março 2010)

"Sem a biologia, não há tratamento das doenças mentais"

Entrevista a Tom Insel, director dos National Institutes of Mental Health dos EUA

Para se conseguir um dia diagnosticar a tempo e tratar eficazmente as doenças mentais vai ser preciso encará-las não como doenças puramente comportamentais, mas como doenças cerebrais, abrindo assim a psiquiatria às neurociências e à genética. Tom Insel dirige, desde 2002, a maior agência de financiamento público da investigação em saúde mental do mundo: os National Institutes of Mental Health (NIMH) dos EUA, com um orçamento anual de 1500 milhões de dólares. Psiquiatra de formação, Insel já foi investigador - estudou a neurobiologia e a genética de comportamentos complexos, como o amor e os laços sociais -, mas agora diz que o seu papel consiste em "falar sobre maneiras radicalmente diferentes de pensar a doença mental" para fomentar a "inovação disruptiva" nesta área.
Há duas semanas esteve em Lisboa, onde deu uma conferência na Fundação Gulbenkian, integrada no Fórum Gulbenkian da Saúde, este ano dedicado à doença mental. A seguir, respondeu às perguntas do PÚBLICO.

O que é a doença mental?
É uma boa pergunta - uma pergunta justa, porque se me perguntassem o que é o cancro ou as doenças cardíacas, eu saberia explicar. Para mim, a doença mental é uma perturbação cerebral. Mas, ao contrário do que acontece com outras perturbações cerebrais, aqui não existe uma lesão detectável. É mais uma lesão funcional, devida ao facto de certos circuitos cerebrais não estarem devidamente sincronizados ou não funcionarem bem.

Por que é que a doença mental é vista como sendo tão diferente das doenças físicas?
Exactamente por isso: porque nunca fomos capazes de encontrar provas dessa disfunção cerebral. Quando uma pessoa sofre de "doença mental" - digamos que está deprimida - e se descobre que ela tem um cancro do pâncreas (o que, em 50 por cento dos casos, está associado a uma depressão grave), diz-se que essa pessoa não tem uma depressão; tem um cancro do pâncreas. Da mesma forma, quando alguém sofre de autismo e se descobre que tem uma síndrome do X frágil [doença genética do desenvolvimento cerebral], afirma-se logo que se trata de um caso de X frágil e não de autismo.
Ou seja, mal se identifica uma causa física, a doença sai do domínio da psiquiatria e passa a fazer parte da medicina "a sério". Mas o que eu digo é que, de facto, as pessoas com depressão que não sofrem de cancro do pâncreas têm contudo qualquer coisa, na maneira como os seus cérebros funcionam, que é anormal. Tão anormal como um cancro do pâncreas em relação a um pâncreas normal.

Disse na sua conferência que, nas doenças neurológicas como o Parkinson ou o Alzheimer, há morte celular, ao passo que as doenças mentais são doenças dos circuitos celulares.
Exactamente. A única excepção a essa regra é a epilepsia. A epilepsia não revela células mortas e é claramente um problema ao nível dos circuitos. Tem graça, aliás, que em certos países a epilepsia seja considerada uma doença psiquiátrica e noutros uma doença neurológica. O que eu digo é que tanto umas como outras são perturbações cerebrais.
Temos de criar uma nova disciplina. Esqueçam a neurologia, esqueçam a psiquiatria, essas disciplinas pertencem ao século XX. No século XXI, precisamos de uma coisa chamada neurociência clínica, capaz de juntar a psiquiatria e a neurologia.
Foi assim que tudo começou: antes de 1900 e talvez até aos anos 1950, a psiquiatria e a neurologia eram uma única disciplina. Freud era neurologista. Está na altura de as tornar a reunir. São como um casal que teve um bom casamento e que depois se divorciou por causa das crianças. Agora, as crianças já estão crescidas e está na altura de os pais se reconciliarem.

Acha que um dia vamos perceber as doenças mentais como hoje percebemos as do corpo?
Acho. Mas vai ser mais difícil, porque estas doenças são mais complexas do que o cancro, do que a diabetes ou as doenças cardíacas. O cérebro é um órgão muito mais complexo do que qualquer outro.
Lembro-me da altura em que ninguém percebia muito bem o que era o cancro. Mas de há dez anos para cá, deixámos de olhar para o cancro da mama, por exemplo, como uma única doença. São dez doenças, com dez tratamentos diferentes.
Temos de fazer o mesmo caminho com doenças como a esquizofrenia, a depressão, o stress pós-traumático. Existem provavelmente formas diferentes de depressão que exigem tratamentos completamente diferentes, porque os mecanismos em jogo são diferentes.
Não é possível continuar a pressupor que o diagnóstico clínico fornece toda a informação necessária sobre a doença mental. Para distinguir os diferentes tipos de cancros e os tratamentos adequados, foi preciso escavar até ao nível da biologia, da genética, da expressão dos genes. Os resultados são melhores quando o fazemos do que quando não o fazemos. O mesmo vai ter de acontecer com a depressão. Vamos ter de perceber o indivíduo não só ao nível comportamental, mas também biológico.

Mas a doença mental está intimamente ligada à personalidade e à história do doente, não apenas à sua biologia.
Pois. Por isso, temos de nos perguntar como é possível que as mesmas circunstâncias traumáticas possam destruir a esperança de alguns e formar o carácter de outros. Temos de ver se é possível identificar variações genéticas que confiram vulnerabilidade ou resistência à doença mental e mesmo se é possível desenvolver uma ciência quantitativa da exposição aos traumas psicossociais, tal como se fez para as toxinas ambientais.
Ainda não temos respostas. Mas é por isso que estamos tão interessados na genética - e não apenas na genética do risco, mas na genética da resiliência. Uma das coisas mais interessantes do momento é que podemos, pela primeira vez, ver as pequenas "pegadas" que a exposição [a factores externos] deixa no ADN. Acho que esta nova área da "epigenética" (ou "epigenómica") vai mudar as regras do jogo.

Para diagnosticar as doenças físicas, existem marcadores biológicos - o nível de certas proteínas, diversas técnicas de imagem. Quais vão ser os marcadores das doenças mentais?
As técnicas de imagem pareciam muito prometedoras, mas o problema é que os sinais [da actividade cerebral] são diminutos e a variabilidade muito grande. Contudo, há estudos que indicam que elas talvez sirvam para prever como um dado doente irá reagir à medicação.
A proteómica - a análise de certas proteínas do sangue - também parecia interessante, mas ainda não deu resultados concretos, embora os esforços nesta área em relação à esquizofrenia sejam impressionantes. Por outro lado, há também muita investigação do autismo ao nível do genoma. E na área da encefalografia, há resultados que indicam que a encefalografia magnética poderá ser um marcador biológico para o stress pós-traumático.
Acho que, dentro de uns anos, vamos pensar não em termos de biomarcadores, mas em termos de "bioassinaturas" que combinarão todas estas ferramentas. É exactamente isso que já se faz hoje no caso das isquémias cardíacas: combina-se a imagiologia cardíaca, a medição dos níveis de colesterol, os estudos genéticos e a electrocardiografia. Juntando a isso a história familiar e a situação clínica, obtém-se um quadro que permite avaliar o risco de cada pessoa perante a doença isquémica e definir o tratamento. É isso que temos de fazer com a doença mental.

O NIMH quer redefinir as doenças mentais. O objectivo é esquecer completamente a classificação actual das doenças mentais segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM) para construir outra, totalmente nova?
Sim, estamos muito interessados nisto. Mas não seria como refazer o DSM. A classificação do DSM [a "bíblia" das doenças mentais, editada pela Associação Americana de Psiquiatria e actualmente em revisão] não é suficientemente diferenciadora. Transposto para a cardiologia, por exemplo, o nível actual do DSM levaria a colocar todas as doenças cardíacas sob a designação de "dor no peito"...
Mas ainda não estamos prontos para operar esta mudança. Por enquanto, como agência de financiamento, o NIMH está a criar as condições para se começar a pensar que, a menos que levemos em conta a biologia das doenças mentais, não vamos conseguir tratá-las. Tencionamos investir o nosso dinheiro para incentivar as pessoas a pensar desta nova maneira, para que esqueçam as etiquetas do tipo depressão, stress pós-traumático, autismo.
O autismo, aliás, é o nosso maior problema, porque engloba umas 40 doenças diferentes. Na minha opinião, a nossa visão actual do autismo corresponde ao que era há décadas a nossa ideia da febre. Hoje, quando uma criança é etiquetada como autista, há quem ache que a doença foi causada por uma vacina e há quem pense que foi a incapacidade dos pais em tratar da criança. É exactamente o mesmo tipo de discussão que acontecia em torno de uma criança com febre quando não havia maneira de saber se a causa era uma infecção bacteriana, viral - ou o nascimento dos primeiros dentes.

Mas existe uma grande resistência por parte da comunidade médica.
Os psiquiatras não têm a formação necessária para pensar de outra maneira. Mas a boa notícia é que vem aí uma nova geração, muito diferente da actual. Hoje, cerca de metade dos estudantes de medicina [nos EUA] têm uma especialização em neurociências. Quando começam a exercer, já sabem tudo sobre o cérebro. Vai ser preciso ceder-lhes o lugar. A nossa esperança está no grupo dos menos de 30 anos.

Esta mudança pode assinalar o fim da psiquiatria, das psicoterapias, da psicanálise?
A psicanálise já era, essa é fácil. A questão é saber se serão os psiquiatras a fazer psicoterapias. O grande valor das psicoterapias é indubitável, apesar de tudo o que acabei de dizer sobre os aspectos biológicos. Se uma pessoa parte uma perna, não nos limitamos a dar-lhe uns analgésicos e a dizer que volte dentro de um ano. Ela tem de fazer reabilitação, nós temos de garantir que vai reaprender a andar. E para alguém que teve um episódio psicótico ou uma depressão grave, é igualmente essencial fornecer esse tipo de apoio. A medicação é apenas uma parcela do trabalho de recuperação - e, em muitos casos, nem sequer é a mais importante. Não me passaria pela cabeça negar a importância da reabilitação e das intervenções psicossociais.

Há muitas pessoas que, sem estarem clinicamente doentes, se sentem deprimidas e tristes. Vai também ser possível aliviar mais eficazmente esse sofrimento?
O objectivo da psiquiatria não é tornar toda a gente feliz. Não estamos aqui para erradicar a infelicidade humana, porque ela faz parte da vida. A tristeza faz parte da vida, a desilusão, a infelicidade, a ansiedade, tudo isto faz parte do funcionamento humano normal, adaptativo. E a psiquiatria é como qualquer outra área da medicina: lidamos com doenças, com situações em que a infelicidade deixa de ser normal e se torna um ciclo vicioso do qual não é possível sair sozinho.
Todos temos dores no peito, todos perdemos por vezes o fôlego - se corrermos muito, isso pode perfeitamente acontecer. Mas nem os cardiologistas nem os pneumologistas consideram que a sua meta seja garantir que ninguém perde o fôlego. O que fazem é identificar quando é que um sintoma como este passa a fazer parte de uma doença real, que exige tratamento.
Vai ser muito importante para as áreas da psiquiatria e da saúde mental em geral distinguir a doença que exige apoio clínico das instâncias normais da experiência humana. Acho que de nada serve considerar como patológico este tipo de vivência. Faz parte da condição humana.

Disse na sua conferência que a psiquiatria trata a doença mental nos últimos estádios, porque ela só se manifesta clinicamente quando já é tarde de mais. Porquê, então, uma tal resistência em mudar as práticas médicas e psiquiátricas?
Para sermos totalmente justos, a verdade é que ainda não temos maneira de detectar a doença mental mais precocemente. Estamos quase a chegar lá no que respeita à esquizofrenia. Também tem havido imensa investigação em relação ao autismo. Normalmente, o autismo é diagnosticado aos dois anos de idade, mas nós gostaríamos de conseguir fazê-lo às duas semanas de vida, só que ainda não sabemos como. É o nosso objectivo científico, não é ainda uma realidade. O modelo a seguir é o da medicina cardiovascular e estamos longe da meta. Mas se o que realmente queremos é conseguir diagnosticar a doença mental mais cedo, temos de desenvolver a ciência já.

Já foi acusado de querer reduzir tudo à biologia?
Já, mas não recentemente. Acontecia-me muito mais quando era cientista em vez de administrador e estudava comportamentos extremamente complexos ao nível molecular. Diziam-me que estava a reduzir o amor a único gene – uma crítica legítima. Achavam isso nojento.
Mas a realidade mostrou que nessa área, quanto mais “moleculares” nos tornávamos, mais espectaculares eram as implicações dos nossos resultados. Era uma abordagem reducionista na medida em que estudávamos mudanças extremamente quantificáveis e discretas no genoma, mas esse trabalho levantava questões muito profundas acerca da nossa evolução, da nossa organização social, da maneira como o cérebro cria significado social. E isso era tudo menos reducionista.
A noção de que quanto mais biológica for a abordagem, menos holística e mais reducionista será, está muitas vezes errada. Na minha experiência, quanto mais mecanicistas nos tornamos, maior a profundidade das questões. Este tipo de abordagem ajuda-nos a questionar os nossos pressupostos e a reconhecer que a maneira como a evolução deu origem ao cérebro não tem nada a ver com o que imaginávamos.
Um exemplo: quando olhamos para os genes e os circuitos cerebrais, percebemos imediatamente que as categorias diagnósticas que utilizamos actualmente para as doenças mentais não podem estar certas, porque não têm nada a ver com a forma como a natureza construiu o cérebro. O facto de nos concentrarmos mais na biologia vai permitir uma forma muito mais holística – e, penso eu, muito mais válida – de pensar nos comportamentos e na organização social humana.
|Ana Gerschenfeld, Público

terça-feira, 2 de março de 2010

O sistema imunológico









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