domingo, 14 de março de 2010

A emoção de Beatriz Batarda e a razão de Elvira Fortunato. Ou será ao contrário?





















Beatriz Batarda

Nunca tinham ouvido falar uma da outra. Mas nenhuma hesitou em aceitar o convite para esta conversa proposta pelo Expresso a propósito dos 100 anos do Dia da Mulher. Nos temas a debater a liberdade seria total. Só depois Beatriz Batarda, 35 anos, e Elvira Fortunato, 45, perguntaram quem era a interlocutora. Quando se sentaram frente a frente, nem sequer esperaram que o gravador fosse ligado. E quando a jornalista se apercebeu já a cientista explicava à actriz o que era o seu trabalho de investigadora.

Elvira Fortunato - Trabalho na área dos materiais. Gosto de cozinhar e isto é quase a mesma coisa: em vez de estar na cozinha a fazer um bolo, fazemos novos materiais para usar em electrónica. Trabalho com transístores, componentes que não vemos mas que nos rodeiam - qualquer equipamento de electrónica (telemóveis, câmaras, televisões...) tem lá dentro um computador com transístores e circuitos integrados. O material usado para fazer estes transístores é um semicondutor chamado silício. O que mudámos? Substituímos o silício por outros materiais.

Beatriz Batarda - Porque está esgotado?

E.F. - Até existe em muita quantidade, mas o seu processamento é muito oneroso, tem que se utilizar altas temperaturas e a tecnologia é poluente... Os materiais que desenvolvemos têm a mesma funcionalidade e são óxidos transparentes... Alguma vez leu o rótulo dos protectores solares?

B.B. - Nunca.

E.F. - Na próxima vez que for à praia leia e verá que de entre os vários constituintes desses cremes há um que é o ZnO, o óxido de zinco, que tem propriedades cicatrizantes e que nós usamos para fazer transístores - é muito mais barato do que o silício, a tecnologia é toda verde e tem ainda a grande vantagem de ser transparente. E assim conseguimos fazer a chamada electrónica transparente. O que permite ter, por exemplo, o GPS no pára-brisas do automóvel embebido no vidro.

B.B. - Como nos filmes.

E.F. - Sim. No filme "Relatório Minoritário" vê-se Tom Cruise a deslocar a informação em placas de vidro... A história é engraçada porque o Spielberg ouviu 20 cientistas sobre como iriam ser no futuro os sistemas de comunicação. Também se vê isso na promoção a um noticiário da SIC Notícias.

A conversa prolonga-se com a curiosidade de Beatriz sobre o trabalho de investigação. Finalmente, a actriz apresenta-se e fala também da sua profissão.

Elvira Fortunato
Elvira Fortunato

B.B. - É difícil apresentar-me assim, e ainda por cima perante uma cientista que tem uma função no desenvolvimento da nossa sociedade e da cultura muito mais relevante do que o palhaço encomendado. Sou actriz e quis ser muitas outras coisas. Sou neta de cientistas e de artistas. Estudei design, mas não se concretizou porque muito cedo tive uma experiência no cinema, com 12 anos, e outra com 17, um pequeno papel com Manoel de Oliveira. Depois comecei a fazer teatro na Cornucópia com o Luís Miguel Cintra. Levaram-me mais a sério do que eu própria e a coisa foi crescendo. Acabei por ter de fazer uma escolha, aliás, tenho a teoria de que tudo são escolhas. Trabalhei em Portugal durante quatro anos em teatro e em cinema. Depois, fui para Londres fazer um curso de drama e fiquei cerca de sete anos. A vida familiar deu, entretanto, voltas, vieram as crianças, e acabei por me instalar outra vez em Portugal. Também porque nesta coisa do teatro a língua é uma limitação muito grande. Ou seja: o teatro que faço é da palavra, mais do que físico ou circense. Por muito que eu me esforçasse por dominar o inglês nunca é a nossa língua. E o que um actor trabalha e procura, além de entreter, é ser transmissor ou espelho de alguma reflexão sobre a condição humana. E, portanto, a língua, era...

E.F. - ...um obstáculo.

B.B. - Sim. Aqui foi possível trabalhar textos e personagens mais complexas do que no estrangeiro, onde me especializei a fazer imigrantes de todas as nacionalidades. No meu país, só tenho a limitação do corpo, da voz, da cara que tenho, e de ser mulher. Se quisermos voltar ao tempo de Platão e Sócrates, podemos falar de sermos veículos da energia das musas, o que deve ser possível provar cientificamente, embora goste de olhar para essa função de veículo de uma forma mais espiritual - a magia é muito importante, haver capacidade lúdica, da ilusão e do sonho... a imaginação é infindável e tem um poder impossível de medir.

E.F. - Costumo dizer que o céu é o meu limite.

B.B. - Pois... a imaginação é essencial nas nossas duas profissões. Um cientista que não tem imaginação e não é criativo, não pode ter ideias contracorrente.

E.F. - É verdade: muita transpiração mas também muita imaginação.

B.B. - Einstein funciona para a ciência e para a imaginação.

E.F. - Acabo o meu doutoramento com uma frase de Einstein, de que alguns professores não gostam: a imaginação é mais importante do que o conhecimento.

B.B. - O conhecimento na área do espectáculo pode ser castrador, limitar a criatividade e bloquear esta disponibilidade para ir além do que são as regras em que vivemos.

E.F. - O conhecimento, a meu ver, é perfeitamente descompartimentado. Não gosto muito de regras no meu trabalho. Estava a ouvi-la e a pensar onde é que podemos ter algo em comum. Temos profissões completamente diferentes mas com uma coisa idêntica: não temos um trabalho de rotina. Gosto muito de fazer coisas sempre diferentes. Não sei se gosta disso...

B.B. - Mal de mim se não gostasse. É muito mais estimulante criativamente. O que também temos em comum é que sabemos que sem arriscar e sem experimentar não se descobre nada. A investigação não é só estudar e acumular conhecimento, imagino que é também arriscar e confrontar-se com a possibilidade do erro e do fracasso...

E.F. - Exactamente.

B.B. - Há várias formas de se ser actor, como há várias formas de se ser cientista. A profissão de cientista é reconhecida, a de actor não - desde logo, por não ser preciso ter um curso para a exercer, com todas as consequências que daí advêm. Cada actor tem uma relação com o profissional à sua medida: não me relaciono com a profissão como uma prestadora de serviços, mas de uma forma muito mais apaixonada e com um enorme respeito. E gosto de pensar que a alma existe - perante uma cientista são afirmações muito difíceis de fazer -, mas gosto de acreditar que há uma alma, não no sentido religioso mas de identidade. E que utilizando aquilo que será a minha identidade mais íntima eu posso não só reflectir enquanto artista sobre a minha relação com o mundo e com os outros, mas também sobre os outros. Para mim, cada peça é um projecto, uma etapa, uma descoberta, em que eu me ponho em questão e cresço enquanto artista. Com algum receio de soar pretensiosa, acho que há actores que podem ser artistas de alguma forma (é muito perigoso dizer isto). O caminho que escolhi - não sou uma actriz facilmente reconhecível porque evito fazer televisão -, é financeiramente mais arriscado. Mas não estou numa posição em que me possa queixar porque tenho tido um percurso de luxo, de privilégio. Como eu, há milhares de actores que não fazem televisão e que não têm tido o mesmo reconhecimento pela imprensa. E se a imprensa não imprime é como se não existíssemos.Ciência e Arte correspondem a uma divisão razão/emoção? A cientista Elvira representa o conhecimento, a razão, e a actriz Beatriz a sensibilidade, a emoção?

E.F. - Não se pode colocar uma barreira emoção/razão. Deste lado há muita emoção.

B.B. - E deste lado há muita razão!

E.F. - Há a razão científica, mas também a emoção de cada pessoa. Na investigação temos uma emoção enorme relativamente aos resultados. Quando fizemos o primeiro transístor em papel foi um delírio no laboratório. Em qualquer profissão há razão e emoção.

B.B. - Um actor que viva só de emoção é incompleto. Não se pode contar uma história nem partilhar o que será um acontecimento na vida de uma personagem se não utilizarmos a razão em confronto com a emoção. Ou seja: ninguém vai para palco com a ambição de chorar. Um actor estabelece um objectivo e um obstáculo para aquela personagem; e age para atingir aquele objectivo, mas quando é confrontado com o obstáculo, há uma consequência, que é a emoção. O instinto é importante, e a inteligência de como se faz esta gestão também faz muita diferença. Se não a emoção pode tornar-se um ruído.

E.F. - Tenho um trabalho muito atribulado e gosto muito de trabalhar em stresse, porque é quando conseguimos explorar ao máximo as nossas capacidades intelectuais. Não consigo provar isto, mas sinto que se conseguir ocupar a minha cabeça com mais coisas também consigo chegar mais longe, porque ponho zonas do meu cérebro a trabalhar que se calhar estariam a descansar. E também tem de existir algum instinto científico. Teoricamente, se eu dissesse a um professor "vou fazer um transístor de papel" a primeira reacção seria "é impossível, não funciona". No entanto, funciona. É o tal risco, a tal curiosidade...

B.B. - E não ter medo de falhar, não é?

E.F. - Não tenho que ter medo de falhar. Mesmo que digam a um cientista "não funciona" ele tem que ter a certeza que não funciona... Cada projecto é uma pecinha e todos os projectos vão contribuindo para o meu projecto de vida em termos profissionais.

B.B. - O que acontece quando se atinge o reconhecimento científico? Isso muda a sua relação com o fracasso? É uma pergunta que fazem muito aos actores.

E.F. - Lido bem com o fracasso, não me derruba. Dá-me mais força, para tentar que o próximo projecto não corra mal. Sou muito optimista, tento ver sempre o lado positivo.

B.B. - Também acredito que quando as coisas correm mal é porque há qualquer coisa para aprender. Através do erro percebo de uma forma mais concreta uma personagem, uma situação ou um pensamento do autor.

E.F. - Os nossos falhanços são diferentes.

B.B. - O seu custa mais dinheiro do que o meu.

E.F. - Se eu falhar no laboratório, só eu e a minha equipa é que sabemos. Se um espectáculo não lhe correr bem é diferente porque tem o público a assistir.

B.B. - É uma morte simbólica.

E.F. - No meu caso, não é presencial e se calhar, por isso, posso falhar mais vezes do que a Beatriz. O meu falhanço não é tão arriscado como o seu porque se arriscar muitas vezes em palco acaba por ser negativo.

B.B. - Sim. Mas o meu falhanço só põe em causa o meu próprio ego. O seu põe em causa todo um projecto e uma equipa.

E.F. - Sim. O seu trabalho é mais individual.

O que há no vosso trabalho de marcadamente feminino? Pode-se falar de uma forma feminina de fazer ciência?

E.F. - Não. Há profissões em que o género pode ter influência. Mas no meu caso não há qualquer diferença entre homem e mulher.

B.B. - No meu há uma diferença que é a atribuição dos papéis, devido ao corpo, à matéria... Posso até brincar com alterações de padrão de respiração inspirando-me em animais e construir assim uma personagem. E isso tem influência na forma como articulo o pensamento e o meu corpo se mexe. Mas é sempre o mesmo corpo e, principalmente, é a mesma cabeça e a mesma alma. E a cada peça já não tenho só a herança genética ou a cultural, mas também a herança de outras vidas que não foram as minhas. Isso vai lá ficando. Camadas por camadas. Acabamos por ser umas entidades muito próprias e, sim, às vezes, no limiar da loucura, porque isto não é um caminho normal de um ser humano. Não é um caminho equilibrado de uma só vida, é uma acumulação de muitas histórias e passados, porque para cada personagem nós reinventamos um passado. Por um lado, isso protege-nos porque nos cria alguma distância, mas, por outro, vão ficando coisas... A imaginação é enorme, mas a memória também.Antes de iniciarmos esta conversa falou de um estudo que conclui que apesar de haver cada vez mais mulheres na carreira científica, poucas chegam aos lugares de topo.

E.F. - Isso ainda é uma realidade. No meu caso, não tenho problemas desses e desde 1998 que coordeno o CENIMAT (Centro de Investigação de Materiais da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa). As coisas aconteceram de uma forma perfeitamente democrática. Não me posso queixar de pelo facto de ser mulher isso me criar obstáculos. Sou uma privilegiada.

B.B. - As mulheres não trabalham fora há muitos anos, nem votam há muitos anos... Em Portugal, as mulheres começaram a estudar e a ser levadas a sério há pouco tempo... Mulheres artistas existem há poucas centenas de anos, enquanto homens artistas é uma actividade milenar... O que estamos a avaliar é uma coisa dos últimos 100 anos, o que não é nada. As coisas têm o seu tempo. Apesar de se sentir ainda em Portugal alguma misogenia (e na minha área também) e alguma dificuldade de aceitação da mente criativa feminina, até é um país sortudo e evoluído.

E.F. - Em países mais desenvolvidos e mais ricos que o nosso as mulheres com determinadas habilitações, até doutoramentos, preferem uma vida familiar. Não tenho que concordar ou deixar de concordar, mas em Portugal hoje em dia a mulher é forçada a trabalhar devido às condições económicas...

B.B. - A mulher sempre teve que trabalhar.

E.F. - Um trabalho que não era reconhecido.

B.B. - Se tivermos um olhar mundial e não só europeu, a questão que se põe é que o trabalho que a Dra. Elvira e eu temos é um luxo.

E.F. - Ah, pois é...

B.B. - Difícil é ser mulher em África ou no Haiti. Perante o que vivemos actualmente, o nosso olhar tem que ser menos egocêntrico. Através das comunicações, o mundo que era imenso tornou-se muito pequeno. Quando digo que somos sortudos é porque estou a olhar para o que se passa no resto do mundo. Cá há muito que lutar? Sim. A mulher portuguesa é muito valente porque quer estar a um nível mais competitivo, quer ser reconhecida como uma cabeça pensante, como uma mente criadora e inteligente, mas também quer ser bonita e ter o corpo todo no sítio, e também quer ter filhos, e um casamento estável, e ser uma boa amante e dona de casa...

E.F. - É complicado!

B.B. - Enfim, quer tudo. Porque temos esse direito. Isso é duro e dá muito trabalho, mas não é impossível e toda a gente luta por isso. Para mim, seria mais duro ser uma mulher num país subdesenvolvido, onde seria obrigada a condicionar o meu ser a uma única função, como ser mãe ou dona de casa.

Faz sentido haver um Dia da Mulher, uma discriminação positiva?

B.B. - Não faz sentido haver só um Dia da Mulher. Se há, deveria haver também um Dia do Homem. Assim, é também discriminação.

E.F. - Concordo. Não sou feminista.

B.B. - Numa sociedade em que começa a haver uma aceitação sobre as escolhas sexuais de cada um, o Dia da Mulher é redutor. E foi escolhido o Dia da Mulher porquê? Porque é mãe? Porque é o ente reprodutor? Podemos ser mulheres sem ter essa função.

E.F. - Entende-se a existência do Dia da Mulher porque assinala uma forma de luta face às discriminações que têm existido. Eu não sinto isso, a Beatriz também não, mas é uma realidade actual: há muitas zonas do mundo onde a mulher é escrava e não tem os mesmos direitos que o homem. Aí, o Dia da Mulher aparece para evidenciar um problema.

B.B. - A discriminação é uma prática recorrente que a civilização tem vindo a atenuar. Existe em Portugal como existe no mundo inteiro, mas a discriminação não é só relativamente à mulher, qualquer pretexto é bom para discriminar... Talvez até seja um impulso primário desta espécie: nós e os outros. Em Portugal, as pessoas são discriminadas ou porque são mulheres, ou porque são de outra cor, ou de outra opção sexual...

E.F. - Há casos em que a mulher sente isso tudo e mais o facto de ser mulher. Em Portugal há mulheres que engravidam e são despedidas.Afinal, concordam ou não com a existência de um Dia da Mulher?

E.F. - Concordo e não concordo. Concordo com o facto de existir o Dia da Mulher como forma de luta para mostrar à sociedade que ainda existe muita discriminação da mulher no mundo, e talvez um pouco em Portugal.

B.B. - Sou apologista da celebração da vida e do amor entre as pessoas. É nisso que acredito.

E.F. - Isso é uma utopia.

B.B. - Pois, mas se não temos uma utopia e um ideal não temos caminho, estamos só a picar o ponto. Acredito na aceitação da diferença e na igualdade, que são luxos da Europa Ocidental. Portanto, o Dia da Mulher depende do contexto em que estamos a falar. Por isso é que eu não reajo de forma tão militante como talvez me ficasse melhor. Sou mais apologista de um Dia Contra a Discriminação.Por muita paridade que exista no casal, na maioria dos casos há uma série de tarefas e responsabilidades que recaem mais sobre a mulher. Como é o vosso caso?

E.F. - Há partilha, até porque trabalhamos na mesma área e no mesmo sítio e temos os mesmos horários. Temos uma filha de 12 anos e há coisas que estão mais ligadas à mãe.

B.B. - Tenho duas filhas, de 3 e 5 anos. Não vale a pena estarmos a bater mais no ceguinho e a repetir as mesmas coisas ao longo dos séculos. Sim, é natural que assim seja, aquele ser é criado dentro da mulher, é ela que o transporta e o faz crescer durante nove meses e o próprio bebé durante os primeiros 2, 3 anos de vida acha que ainda está dentro da barriga da mãe. Isto é a biologia. E há limites para a civilização - destruir aquilo que é a biologia e que é um impulso primário de sobrevivência de uma espécie em nome de um enaltecimento da cabeça pensante seria um crime. Claro que culturalmente os pais da minha geração estão mais presentes do que os meus pais estiveram, há um desejo de partilha dessas tarefas, mas há coisas que são...

E.F. - Intrínsecas.

B.B. - ...para além daquilo que a razão permite.E como dividem as restantes tarefas domésticas? Já agora: tem influência o facto de serem casadas com homens da mesma área, a Beatriz com o músico Bernardo Sassetti e a Elvira com o cientista Rodrigo Martins?

B.B. - Quem lava a loiça? Nós somos burgueses, temos máquina de lavar.

E.F. - Não gosto de lavar loiça. Quando é preciso é o meu marido que lava.

B.B. - Tenho muitas ajudas. Somos dois artistas e não temos horários convencionais, trabalhamos muitas vezes à noite. Mas assim, é mais suave, menos violento - ele compreende e interessa-se pelo meu trabalho e partilhamos referências de filmes, livros, museus... Claro que o equilíbrio não é fácil, mas tentamos informar-nos e tornar o crescimento das crianças mais estável e saudável dentro daquilo que é uma vida um pouco instável. Tudo se faz. As pessoas adaptam-se. Somos umas famílias diferentes daquilo que será a maioria, mas não somos os únicos.

E.F. - Também não temos um horário das 9 às 5, às vezes não temos sequer horários. Tem sido importante termos os dois a mesma profissão porque permite uma maior compreensão do trabalho um do outro. Observo em colegas minhas que não tendo a mesma profissão que o marido às vezes é mais difícil explicarem porque é preciso ir à noite à faculdade ou trabalhar no fim-de-semana.

As duas horas de conversa voaram. Tanto ficou por dizer, mas muito, ainda assim, foi dito. Beatriz partiu a correr para os ensaios da peça "Olá e Adeusinho", de Athol Fugard, que no final deste mês marcará a sua estreia como encenadora. Elvira vai ainda fazer as fotografias individuais, mas o telemóvel toca cada vez com mais insistência - em parte porque na semana seguinte chegava o microscópio electrónico para observações à nanoescala, aquisição na qual aplicou parte dos 2,25 milhões de euros do prémio do European Research Council que em 2008 lhe granjeou a notoriedade nacional e internacional.

(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 06 de Março 2010)

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