sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Disputa de pais. Sónia vai ser levada à força para França, ordena o tribunal

Sónia tem dez anos e quer continuar a viver com o pai em Portugal. O tribunal de Setúbal, porém, manda-a para França, à força, para morar com a mãe

Sónia vai ser levada à força da casa em que vive com o pai, em Setúbal. O Tribunal decidiu que a criança de dez anos tem que voltar para França, onde nasceu e morou até Dezembro de 2008. E onde estão a sua mãe e a sua irmã mais velha, Sara.

A história não dói no papel. Só no pequeno universo da Sónia. Uma rapariga com dez anos (quase onze, diria ela), que prefere viver com o pai, em Setúbal, a continuar nos subúrbios de Lille, onde morava com a mãe e a irmã desde o divórcio dos pais. Os ingredientes do drama de Sónia são simples.

António e Isaura, emigrantes em França, casaram e tiveram por lá duas filhas. A crise atingiu a família que, com ambos os membros do casal desempregados, decidiu vir para Portugal. António conta que veio à frente porque arranjou um contrato de trabalho. Isaura, que recebia ainda um subsídio da segurança social francesa pelo nascimento de Sónia, viria também e, quando acabasse a subvenção, decidiriam o que fazer à vida. Afinal, Isaura não veio. E o casal divorciou-se.

Feita a regulação do poder paternal, o Tribunal de Grande Instância de Lille decidiu que as irmãs ficariam sob "guarda conjunta", ou seja, o poder paternal era atribuído a ambos os pais. Sara e Sónia viveriam com a mãe, passando um mês de férias e ainda a semana do Natal ou da Páscoa com o pai.

Porém, António e Isaura não se entendem. Pior, não comunicam. Entre o silêncio que os separa e gera intenso sofrimento nas filhas, sucedem-se os equívocos. Uma vez a mãe queixa-se por as crianças voltarem depois da data acordada, noutra ocasião o pai é impedido de as ver no Verão por Isaura estar "em parte incerta". O pai que não falava com a mãe. A mãe que não deixava as filhas telefonarem ao pai. Queixas que povoavam as vidas de Sara e Sónia. Um clássico dos divórcios mal resolvidos que prejudica os únicos inocentes: os filhos.

Sónia quer ficar No Natal de 2008 Sónia e Sara vinham para Portugal. Mas, diz António, a mãe recusou levá-las ao aeroporto e assim, não sendo certa a viagem, os bilhetes estiveram em aberto até um casal amigo decidir acompanhar as crianças. António já não conseguiu marcar o regresso a Lille para a data prevista: 5 de Janeiro, mas para o dia 11. Após o Natal, Sónia anunciou ao pai que queria viver com ele. António deu-lhe tempo para repensar, falando também com Sara. Disse à filha que devia regressar a França e que, até ao Verão, trataria do processo para que ela pudesse nessa altura ficar. Sara quer continuar com a mãe. Sónia mantém a decisão. E recusa-se a voltar para França. António vai ao Ministério Público e conta a história ao procurador, que também ouve Sónia. Entretanto, a polícia batera-lhe à porta. Isaura fizera queixa por as crianças não terem voltado. Entre psicólogas e processos, Sónia entra na escola em Setúbal. Passa o ano e, ela que em França chumbara, é agora uma das melhores alunas da turma. Alheio a tudo isso, o Tribunal de Setúbal decide. Mesmo estando feliz por cá, mesmo sendo boa aluna, mesmo preferindo viver com o pai, Sónia deve ser devolvida a França. Será levada à força ainda este mês, por uma assistente social que a entregará a Isaura. Quando o pai conseguir, em França, alterar o poder paternal, Sónia poderá voltar. Mesmo que entretanto tenham passado anos. Mesmo que, entretanto, Sónia sofra mais uma separação. E mesmo que tudo isso seja, como é, irreparável.
|Fonte: Jornal "I"

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