quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Cromossoma dos homens evolui mais rápido que o das mulheres


Cientistas norte-americanos descobriram que as principais características do cromossoma Y, que define o sexo masculino, são a renovação e a revitalização

Um novo olhar ao cromossoma Y veio desfazer ideias feitas há muito sobre a história da sua evolução. Longe de estar em decadência, o cromossoma Y é a porção do genoma humano que muda mais rapidamente, estando constantemente a renovar-se.

Trata-se de "um resultado tão inesperado como espantoso, verdadeiramente surpreendente", assegura Scott Hawley, perito de cromossomas do Stowers Institute de Kansas City (Montana, Estados Unidos).

O cromossoma Y torna masculino o seu detentor porque contém o gene que determina a masculinidade. Os rapazes nascem com um cromossoma Y e outro X em todas as células do corpo, enquanto as raparigas têm dois XX. Os restantes 22 pares de cromossomas que compõem o genoma humano são iguais em ambos os sexos.

O rápido índice de alterações evolucionárias do cromossoma Y não significa que os homens estejam a evoluir mais rapidamente do que as mulheres. Mas é provável que o ritmo furioso da sua inovação tenha repercussões noutras partes do genoma humano.

A descoberta foi divulgada online na revista especializada "Nature", por uma equipa liderada por Jennifer Hughes e David Page, do Instituto Whitehead de Cambridge (Massachusetts, Estados Unidos). Em 2003, Page, trabalhando com cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, descodificou a sequência de ADN do cromossoma Y humano. Ele e a mesma equipa do genoma, da Universidade de Washington, descodificaram agora o cromossoma Y do chimpanzé, proporcionando, pela primeira vez, um referencial de avaliação da história evolucionária do Y humano.

As linhagens do chimpanzé e do homem têm um antepassado comum que existiu há apenas seis milhões de anos, um pequeno instante em termos de tempo evolucionário. No seu conjunto, os genomas de ambas as espécies diferem em menos de 1% do ADN. Mas os cromossomas Y diferem em 30% do ADN, o que significa que esses cromossomas estão a mudar a um ritmo mais acelerado nas duas espécies do que o resto do genoma.

No caso dos chimpanzés, a pressão evolucionária sobre o cromossoma tem provavelmente origem nos hábitos de acasalamento. Quando uma fêmea entra em cio, acasala com todos os machos do grupo, criando, no interior do sistema reprodutivo dela, uma competição entre o esperma dos diferentes machos.

Muitos dos genes que regem a produção de esperma encontram-se no cromossoma Y, e qualquer variação genética que melhore as hipóteses de um chimpanzé se tornar pai será favorecida e espalhar-se-á rapidamente por toda a população.

A competição espermática pode também ter sido importante para os primeiros humanos durante algum tempo, depois de as linhagens do chimpanzé e do Homem terem divergido. Alguns peritos pensam que a competição espermática poderá ainda desempenhar um papel na reprodução humana, dada a série de casos de heteropaternidade; o nascimento de gémeos de pais diferentes.

Outra razão para a intensidade das pressões selectivas sobre o cromossoma Y, tanto em chimpanzés como no Homem, pode dever-se ao facto de a selecção natural o encarar como uma só unidade, de maneira que uma alteração em qualquer dos seus genes afecta a sobrevivência de todos os outros. Nos outros cromossomas, a selecção está mais dirigida para genes individuais porque há troca de blocos de ADN entre os membros de cada par de cromossomas, antes da geração de óvulos e de esperma.

Este processo de troca de ADN é proibido entre o par X e Y, impedindo o gene de determinação da masculinidade de ser transferido para o cromossoma X, o que criaria um caos sexual.

No entanto, essa proibição fez com que muitos dos genes do cromossoma Y entrassem em decadência, por falta de vitalidade. No resto do genoma, um geme danificado por uma mutação pode ser trocado por uma cópia em bom estado do outro cromossoma.

No Y, que originalmente tinha o mesmo conjunto de genes que o X, a maioria dos genes relacionados com o X foram desaparecendo ao longo dos últimos 200 milhões de anos. Até agora, muitos biólogos partiam do princípio de que o cromossoma Y se encaminhava para uma futura extinção ou que, em termos gerais, a sua decadência evolutiva tinha parado e que tinha caído numa situação de estagnação.

A descoberta de Page é surpreendente porque mostra que o cromossoma Y conseguiu uma tábua de salvação inesperada. A principal característica do cromossoma Y revelou ser, afinal, a renovação e a revitalização, depois de ter sido descartado o lastro desnecessário dos genes relacionados com o X.

"A selecção natural está a moldar o Y e a mantê-lo num grau de vitalidade que vai contra a ideia dos últimos 50 anos, de que era um cromossoma em decadência", explica Page. "É agora claro que o cromossoma Y é, de longe, a parte dos genomas humano e do chimpanzé que mais rapidamente evolui."

Isto não significa que os homens estejam a evoluir mais depressa do que as mulheres, dado que uns e outras pertencem à mesma espécie. Contudo, é possível que o ritmo de mudança do Y seja determinante ou influencie a evolução do resto do genoma humano, de forma que agora precisa de ser analisado. Seria "difícil imaginar que essas mudanças dramáticas do Y não tivessem consequências mais abrangentes", defende Page.

Andrew Clark, geneticista que trabalha com o cromossoma Y na Universidade de Cornell, Estados Unidos, diz que o ritmo de mudança de ADN do Y pode ter implicações na actividade dos genes de todo o genoma, porque já foi detectado tal efeito em moscas da fruta, em laboratório.

A descodificação do ADN do Y foi particularmente difícil porque o cromossoma está cheio de capicuas - séries de ADN com a mesma leitura a partir de qualquer das extremidades - e sequências repetidas que confundem os sistemas de descodificação. A descodificação do cromossoma Y humano levou 13 anos e a do chimpanzé, oito, diz Page.

|Fonte: Jornal "I"

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